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Doclisboa 2017: Risk

por Roni Nunes, Sábado, 21.10.17

Artigo originalmente postado em SAPO MAG (https://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/doclisboa-julian-assange-e-o-super-heroi-de-risk)

 

Doclisboa: Julian Assange - o super-herói

Depois de “Citizenfour”, a realizadora Laura Poitras regressa com “Risk”, uma narrativa fragmentada sobre momentos da vida de Julian Assange, o australiano que fundou o Wikileaks.

 

 

Laura Poitras gosta de labirintos. E passeios e conexões nem sempre óbvias entre muitos tempos e espaços. Não é fácil acompanhá-la; não há um centro, um foco, uma trajetória linear em “Risk”.

 

A narrativa fragmentada fala de momentos na vida de Julian Assange, o australiano que fundou o Wikileaks e entrincheirou-se na Embaixada do Equador em Londres sob a acusação (nunca formalizada) de assédio sexual.

 

Por essas deslocações pelo globo talvez a ideia da realizadora seja a de mostrar que os enredos de filmes de espionagem existem no mundo real; sem o conforto da fantasia, no entanto, percebe-se que os “bons” são feios, os “maus” são os heróis e o mundo em que vivemos é um lugar muito temerário.

 

Ocorre então que, em algum ponto do planeta, alguém levanta-se contra a maré; poucos – Assange, Edward Snowden, tema do seu filme anterior, “Citizenfour” – tornam-se mediáticos; logram reunir apoio entre “hackers” que enviam estilhaços de uma cave cibernética ou jovens que dão a cara mascarada em manifestações à pala de outra fantasia distópica – a do “Anonymus” de “V de Vingança”. Não imaginam, mas são “privilegiados”: ao redor do mundo milhares de heróis pobres e não “tecnológicos” desaparecem sob a tortura e o assassinato.

 

 

Super-heróis

 

No mundo da internet e do Big Brother do século XXI as histórias de super-heróis só podem ser materializadas como um filme de cerco. A clausura não envolve só Assange; a sua assistente e futura esposa, Sarah Harrison, o seu colaborador Jacob Applebaum: todos têm uma vida dura.

 

Poitras, por seu lado, afirma encontrar a casa revirada pelo FBI quando volta de viagem e pertence à lista negra dos ativistas “anti-US” que são revistados em todos os aeroportos por onde passam.

 

Mas ninguém está a fazer de super-herói: segundo os cálculos do fundador do Wikileaks em “Risk”, uma extradição para os Estados Unidos custaria-lhe a pena de morte ou prisão perpétua. Na “melhor” das hipóteses, 30 anos de prisão – “sob condições bastante severas”.

 

Os protetores

 

Um claustrofóbico estado de vigilância. CIA, NSA, FBI: o mundo é um lugar perigoso. São idealizados nas fábulas de Hollywood, mas na prática trazem ao de cima ao cidadão comum a angústia com raiz na Antiguidade romana: “Quem nos protegerá dos nossos protetores”?

 

Em "Risk", quando a palhaça Lady Gaga (sim, a própria) entrevista Assange, ele enumera uma bela lista de caçadores – que além das siglas citadas e dos diversos braços, armados ou não, dos departamentos de Defesa e Justiça dos Estados Unidos, incluem muitos outros da sua terra natal e da Inglaterra.

 

Declarações de intenções

 

Aqui e ali, resquícios de uma filosofia simples e coesa. Não é a complexidade das ideias, mas a tenacidade com que alguém se mantém fiel aos seus princípios (o diálogo inicial) ou uma justificação existencial encontrada a meio do filme: “Não acredito em mártires. Só em raros casos alguém o deveria ser. Mas o risco da inação é extremamente elevado. Qual é o risco de ficar sentado? É apenas mais um dia que se perde. Você não tem muitos. Se você não está a lutar por aquilo que acredita, você está a perdê-los”.

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por Roni Nunes às 01:13

Doclisboa 2017: I Don't Belong Here

por Roni Nunes, Sábado, 21.10.17

Artigo originalmente postado em SAPO MAG (http://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/doclisboa-exibe-filme-sobre-a-dura-vida-dos-deportados-acorianos)

 

Doclisboa: a dura vida dos deportados açorianos

"I Don’t Belong Here" conta a história de açorianos expulsos dos Estados Unidos e do Canadá. De volta às ilhas, são obrigados a integrar-se num país que nunca conheceram. O SAPO Mag conversou com o realizador, Paulo Abreu.

 

 

“I Don’t Belong Here”, presente na Competição Portuguesa do Doclisboa, conta a história de açorianos expulsos dos Estados Unidos e do Canadá. De volta às ilhas, são obrigados a integrar-se num país que nunca conheceram. Para aliviar a situação, um grupo de teatro convida-os para fazer uma peça… O SAPO Mag conversou com o realizador, Paulo Abreu.

 

Segundo o filme relata, entre 2013 e 2015 centenas de imigrantes ficaram retidos nos Açores depois de terem sido expulsos da América do Norte. A viver numa situação precária, ficaram afastados da única realidade que conheciam – uma vez que saíram de Portugal quando crianças pequenas.

  

A maior parte deles nem sequer fala português; outros deixaram para traz famílias e, essencialmente, tudo o que tinham. Para além destas dolorosas questões pragmáticas, o filme espelha a questão da identidade – muita reveladora no jogo de futebol entre Portugal e Estados Unidos, que divide a audiência.

 

Um trabalho com um grupo no teatro, no entanto, aliviou um bocado a vida de alguns deles ao permitir-lhes, com base na partilha de experiências, desenvolver um trabalho de interpretação como atores. No final, houve até dois deles que foram selecionados para o novo filme de Bruno Almeida (o mesmo de “Operação Outono”).

 

Na entrevista que se segue, Paulo Abreu conta os pormenores de uma história de contornos dramáticos.

 

O futebol é chato e os Açores parecem Alcatraz

 

“Como a grande maioria deles saiu dos Açores com quatro ou cinco anos, a sua cultura é totalmente americanizada. Apesar de as raízes serem açorianas, toda a educação foi ou americana ou canadiana, eles não têm nenhum ou muito pouco conhecimento da história de Portugal e da cultura portuguesa – como se pode ver no filme quando visitam algumas cidades. Também como a maioria emigrou para fugir à pobreza e os pais estavam sempre demasiado ocupados a trabalhar para sobreviver, provavelmente nunca tiveram tempo de lhes passar alguma cultura portuguesa."

 

"Eles não se sentem portugueses e, de facto, não são, daí o título "I Don't Belong Here" - que também era o título da peça. No jogo de futebol que se vê no filme, há uma divisão dos que torcem por Portugal e dos que torcem por Portugal ou pela América mas, a grande maioria deles, no fundo, acha o "soccer" muito "boring" e gostam é de basebol, basquetebol, “bowling” ou futebol americano. Essa é a realidade deles."

 

"Também é importante perceber que eles estão naquela ilha obrigados, não foram para lá de férias - daí muitos lhe chamarem Alcatraz ou 'o rochedo'. Aquilo para eles é uma prisão rodeada por água. Um deles diz no filme que preferia ter ficado na prisão na América porque, pelo menos, podia abraçar os filhos quando eles o fossem visitar. Nos Açores não recebem visitas da família porque, normalmente, elas não têm dinheiro para o fazer."

 

Uma situação triste e revoltante

 

“Acho que o filme retrata também um período em que eles foram bastante felizes, ou um pouco mais felizes, porque perceberam que se podiam 'evadir' através da arte. E, de facto, acho que se evadiram. Eles eram excelentes atores e muito corajosos porque nós todos os dias lhes pedíamos para nos contarem coisas que eles estavam a tentar esquecer. A peça era uma espécie de documentário ao vivo, com monólogos improvisados, baseados nas vivências pessoais deles, mas também com algumas situações cómicas que mostravam o absurdo da deportação."

 

"Tudo começou com uma peça de teatro sobre a passagem do cantor Jacques Brel no Faial, 'Brel nos Açores', que terminou por ser um enorme sucesso nas ilhas. O Observatório dos Luso-Descendentes desafiou o grupo, então, a realizar um trabalho sobre a deportação. A peça depois virou o projeto do filme. Com a ajuda voluntária de muita gente fomos conseguindo fazê-lo – sem nunca termos, de facto, um orçamento definido. Agora temos de tentar arranjar dinheiro para pagar alguns 'cachets' técnicos e tentar distribuir o filme."

 

"Durante os primeiros 'workshops', eu e a equipa tomámos consciência da duríssima realidade destes homens e da injustiça da situação, já que eles são deportados depois de cumprirem penas de prisão e não antes. O que, no fundo, é uma dupla pena – muitas vezes por crimes banais que em Portugal não seriam sequer crimes. É o caso da posse de pequenas doses de drogas, por exemplo. As leis da deportação na América do Norte endureceram bastante depois do 11 setembro de 2001. Toda esta situação e as histórias horríveis de separação de famílias que ouvi revoltaram profundamente a mim e à equipa."

 

Em busca de um final feliz

 

“O cineasta Bruno de Almeida foi ver a peça quando estreou em Lisboa e adorou-os como atores – acabando por escolher dois deles, Tony Brum e Zita Almeida, para um filme; mais tarde, foi à ilha fazer 'castings' e trouxe outros dois deportados que não tinham feito a peça. Eles entraram numa longa-metragem que vai estrear para o ano e onde, por exemplo, o Tony Brum faz de braço direito do Michael Imperioli ["Os Sopranos"] e tem um belíssimo papel. Fui lá visitá-los à rodagem um dia e os deportados estavam bastante à vontade naquele meio, foi muito bom vê-los felizes outra vez."

 

"A intenção principal é pôr o projeto em festivais nos Estados Unidos e no Canadá, porque assim os deportados do Canadá podem ir aos EUA e vice-versa. Isso seria o ideal e sentiria que a nossa missão foi cumprida, já que tentámos fazer isso com a peça mas era incomportável em termos financeiros."

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por Roni Nunes às 00:58


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...



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