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Doclisboa: Whitney Can I Be Me - crónica de uma tragédia-cliché

por Roni Nunes, Domingo, 22.10.17

Artigo originalmente postado em C7nema (http://www.c7nema.net/artigos/item/47376-doclisboa-whitney-can-i-be-me-cronica-de-uma-tragedia-cliche.html)

 

Doclisboa: Whitney Can I Be Me - crónica de uma tragédia-cliché

  • Publicado por  Roni Nunes

 

Artista famosa não suporta a pressão. Tem uma mãe dominadora. Está cercada de parasitas. A única amiga verdadeira é suspeita de ser sua amante.

 

O desejo de ter uma familia normal faz a artista famosa agarrar-se a um Outro idealizado. Que, certamente, não corresponderá. A artista famosa é o centro de uma máquina em andamento. Não pode parar ou toda a gente deixa de ganhar dinheiro. Não importa como se sente. A artista famosa tem uma filha; ser mãe não é uma mera questão de vontade. A artista famosa sequer conseguirá que a filha tenha um destino melhor que o seu.

 

A história triste de Whitney Houston seria apenas um filme-cliché se não fosse verdadeira. 

 

Ninguém nos anos 80 parecia notar: Whitney veio do gueto. A primeira coisa a fazer quando se quer que ela transcenda o audiência negra e transite para o mainstream é apagar as suas raízes. É o que lhe é pedido e é o que ela faz: representa um papel. Assim, logo de início lhe é arrancado o primeiro traço da sua identidade. Fundamental dentro da ideia exposta pelo realizador Nick Broomfield no título do seu filme. Depois de um episódio duríssimo, a vaia no Soul Train (para os negros ela era uma traidora), ela vai lançar ao produtor uma pergunta retórica na elaboração do álbum a seguir: "posso ser eu"?

 

 

Todos os entrevistados avançarão respostas para a escolha de Whitney por um caminho sem volta. A religião, tal como compreendida por ela e sua família tem um papel fundamental na sua derrocada. Os dogmas são baseados em "verdade reveladas" repletas de medo e preconceito. Há quem sugira pelo filme que talvez ela estivesse viva se tivesse assumido uma relação com Robyn Crawford, sua amiga de infância. Tal jamais seria suportado por alguém próximo a ela. Tempos mais tarde tentará a família idealizada de todo o temente a Deus. Ingénua ela fará,claro, uma má escolha.

 

Antes disto, uma cantora da sua banda resume a situação de uma forma brutal: "A mãe dela estava muito contra. Clive (o produtor) estava muito contra. Porque não era bom ter um caso lésbico. Acho que que se ela fosse artista hoje, não teria problema. Estaria tudo bem. Provavelmente ainda estaria aqui. Mas a essa altura, havia uma pressão tremenda para ela ser a rapariga perfeita. Tornou-se um conflito e é interessante, porque há as drogas, há esta família consumida pelas drogas, e mesmo assim é na homossexualidade que eles se focam. Quando teria sido melhor tentar lidar com essas drogas do que, provavelmente com isso. É de novo aquela religião, a religião feroz que, eu penso, que Cissy tinha, que era muito importante para ela, Ela era uma anciã na igreja, a filha não podia ser homossexual".

 

 

Outro momento: Whitney procura desesperadamente por Deus, mas este náo é de forma alguma o Deus que ela precisava: é um ser esmagador, que a cobra por ter lhe dado um dom e ela não sabe cuidar dele.

 

Quanto a Bobby Brown, a ingenuidade da cantora é tocante: num "talk show" ela diz que ele tinha tido outras mulheres como qualquer homem mas, agora, tinha ganho juízo e decidido "assentar e ter uma família".

 

Talvez a cena mais "aterradora" e surreal desta trajetória para o caos seja protagonizada pelo seu pai. Não se encontra tão facilmente episódios assim: moribundo num hospital, a última coisa que se lembra de fazer é processar a própria filha. Já a morrer, demanda que ela lhe pague o que lhe deve. Nas suas contas são 100 milhões de dólares. A vida da artista famosa tinha, afinal, um preço.

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por Roni Nunes às 22:35

Doclisboa: «No Intenso Agora» – um poema estupendo e o fim das utopias

por Roni Nunes, Domingo, 22.10.17

Artigo originalmente postado em C7nema (http://www.c7nema.net/entrevista/item/47369-doclisboa-no-intenso-agora-um-poema-estupendo-e-o-fim-das-utopias.html)

 

Doclisboa: «No Intenso Agora» – um poema estupendo e o fim das utopias

  • Publicado por  Roni Nunes 

 

 

Um lindo crepúsculo chuvoso sobre o complexo de vidro que rodeia as salas do Cinemarx. A estreia mundial de No Intenso Agora, no Festival de Berlim, tem um teatro a abarrotar. O filme termina, os aplausos são entusiasmados; alguns estão tocados pela delicada teia urdida a partir de comoventes filmes familiares que funcionam como testemunhos oculares de momentos coletivos dramáticos – cozidos com a leitura das imagens feitas em off pelo cineasta.

 

João Moreira Salles fala com o público. Que está interessado: No Intenso Agora fala de muita coisa, cabe um mundo nas suas duas horas de projeção. Mas é muito mais do que os fragmentos da Revolução Cultural chinesa, o Maio de 68 francês, a invasão da Checoslováquia pelos russos no mesmo ano.

 

No dia a seguir à sessão na Berlinale, Moreira Salles conversou com o C7nema.

No Intenso Agora é exibido amanhã (22/10) no cinema São Jorge, com a presença do cineasta.

 

O MAIS ROMÂNTICO DOS SONHOS REVOLUCIONÁRIOS

 

 

De todas as fantasias revolucionárias retrospetivas, a imagem do Maio de 68 é das mais duradouras."É a mais romântica", diz o cineasta. Fragmentos do filme: em Paris os estudantes tiram a voz aos mais velhos, filhos de burgueses batem-se nas ruas com as tropas de choque enviadas pelos seus pais; a Paris Match paga uma viagem a Daniel Cohn-Bendit e torna a revolução num adereço de marketing; estudantes e operários falam de alturas diferentes; nunca se entenderão. As imagens são poderosas: no fim de uma greve, uma operária traída.

 

O realizador assinala: "O maio de 1968 envolve uma nostalgia, é o mais romântico, com as suas palavras de ordem, a poesia, é deslumbrante. Mas, na verdade, nos Estados Unidos e na Checoslováquia ele foi mais rico, tinham mais coisas em jogo. E foi mais corajoso, teve mais consequências. O maio de 1968 francês foi socialmente conservador, as mulheres estão em segundo plano e os negros estão ausentes".

 

Tampouco estudantes e operários concordaram em apertar as mãos. "Houve uma única passeata em que, pela primeira e última vez, estudantes saíram em passeata com a organização sindical. Estes, no entanto, disseram que não apertariam a mão de Cohn-Bendit, ele que fizesse passeata em outro lugar".

No filme, Cohn-Bendit encontra a glória e é consumido por ela - agora é o maior intelectual francês, Jean-Paul Sarte, quem o entrevista. O pensador está espantado com a falta de um programa dos estudantes.

 

"Sartre dizia a eles: vocês têm que ter um programa, uma direção. Quando não se tem ganha-se algumas coisas – a vitalidade, a espontaneidade, a alegria, a irmandade, mas perde-se noutras, que é a capacidade de impactar de verdade", reflete. Tudo terminará numa "acordo sórdido" a envolver questões salariais, dirá um anónimo.

 

TANQUES EM PRAGA: O FIM DE TODAS AS ESPERANÇAS

 

 

A História é algo móvel. A escolher um momento para o fim de todas as esperanças, Salles optaria pela invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Este é mostrado por comoventes imagens familiares, colhidas através de arquivos de preservação do país. "O material que encontramos sobre esta altura é um achado", lembra.

 

O cineasta analisa: "Podemos afirmar que a experiência de 68 acaba aí. Aí temos um país socialista esmagando uma experiência progressista de um país que não queria necessariamente emigrar para a esfera do Ocidente. Quando aquilo ocorreu a juventude que tinha saído às ruas em 68 em nome de um socialismo mais progressista percebeu que não havia caminho, não havia jeito."

 

Os russos já tinham apoiado os sindicatos franceses a acabarem com as greves e encerrarem os tumultos. Fidel contribui com a pá de cal: "Cuba apoiou a invasão. Fidel naquele momento ainda era a grande luz no sentido da revolução libertária. Ele diz que moralmente era indefensável, mas politicamente a invasão de Praga era necessária. Aí as pessoas se deprimem, a ideia de socialismo acaba".

 

UM PONTO DE CHEGADA: BRASIL, 2013

 

 

O filme restringe-se ao ano de 1968. Pergunto ao cineasta o significado simbólico deste fim de ideia utópica para o Brasil, um país com muito a conquistar.

"Sob um certo aspeto abandonar a utopia foi uma coisa boa. Sob um certo ponto de vista, a utopia é um "não-lugar", algo onde você nunca vai chegar. É bom o fim desta ideia, temos que lidar com coisas possíveis, palpáveis. As manifestações que ocorreram no Brasil em 2013, por exemplo, eram anti-críticas, conservadoras, que desqualificam a política. Diziam 'partido político não!'. Mas o que você vai pôr no lugar? Essa via abre espaço para a Bolsonaros *".

 

* Referência a Jair Bolsonaro, política brasileiro com estilo e discurso semelhantes ao de Donald Trump.

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por Roni Nunes às 15:52


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...



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