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IndieLisboa 2018: The Night Eats the World

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

O conceito desenvolvido por Richard Matheson em "I Am Legend", nos anos 50, estava destinado à uma vida longínqua. Um homem, que pode ser o último na Terra, um cerco que exige uma organização metódica para sobrevivência, e um exterior infestado de criaturas hostis. George Romero aproveitou a ideia e mudou para sempre a história dos filmes de "zombies" em 1968 com "A Noite dos Mortos-Vivos".

 

Solidão, violência e o fantasma do apocalipse: uma face válida para o glorioso século XXI – que na cinematografia "zombie" arranca a abrir com os mortos-vivos velozes de "28 Dias Depois" e segue alegremente violenta pelos "walking deads" fora.Dominique Rocher ousou inserir mais um na linhagem, "La Nuit a Dévoré le Monde", mostrando que as realizadoras francesas de filmes de terror chegaram para ficar: no passado, a mesma secção do IndieLisboa exibiu a estreia visceral e imaginativa de Julie Ducornau com "Grave".

 

Sam (o norueguês Anders Danielsen Lie, de "Oslo 31 de Agosto") desperta já num cenário propício para um cerco – um apartamento – depois um edifício quase inteiro. A lei da selva segundo Rocher implica, felizmente, bastante sangue nas paredes e cenas de ação bem executadas – como demandam hoje em dia os conhecimentos técnicos tornados cada vez mais elementares e uma tecnologia acessível.

 

Quanto à gestão de tempo, sempre fundamental em histórias minimalistas de sobrevivência, a realizadora percorre esse caminho muitas vezes trilhado com as suas próprias inventices (o toque “Robinson Crusoé” e o sempre imperdível Denis Lavant como o “Wilson” de Sam) e brincadeiras (a piada dos “fãs” a correrem para o concerto do “ídolo”). A despeito do tema, Rocher opta por um cenário ensolarado, onde a música tem um papel importante na sobrevivência mental de Sam – tal como o seu poder de imaginação, responsável por um dos momentos cruciais de revigoração da narrativa perto do fim.

 

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por Roni Nunes às 15:12

IndieLisboa 2018: Adieu Philippine

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: fantasmas de guerras, alegrias juvenis
 

O veterano Jacques Rozier, um dos Heróis Independentes do IndieLisboa 2018, inscreveu o seu nome na fase inicial da "Nouvelle Vague" francesa com apenas um filme. “Adieu Phillipine” traz uma animada Paris sob pano de fundo e acompanha, com uma entusiástica banda sonora, as perambulações de duas jovens (vividas por Stefania Sabatini e Yveline Céry) descontraídas pela cidade. A dado momento, ambas namoriscam com o mesmo rapaz, Michel (Jean-Claude Amini) – um jovem operador de câmara em vésperas de ser enviado para a Guerra da Argélia.

 

Próprio de uma época de ascensão da cultura de juventude, “Adieu Phillipine” traz a leveza do espírito juvenil e do descompromisso – simbolizada principalmente nas jovens que, apesar de um certo recato, infringem alegremente as regras dos “bons costumes”. O título do filme, sem significado literal nenhum, é “encontrado” pelas duas num jogo antes de dormir: aquela que ao acordar dissesse primeiro “adieu Philippine” ficava com o rapaz antes da outra...

 

Sem uma narrativa linear, há histórias sobre carros, bares, festas e muitos piropos (será que hoje em dia se chamaria “assédio”?) – vindos de homens mais velhos ou de rapazes – que se estendem das ruas da metrópole à Córsega, onde Michel decidiu aproveitar os seus últimos dias antes de se juntar ao exército. O tom não é sempre o mesmo: ao de cima também vêm os limites dos relacionamentos “liberais” – tal como a sombra da guerra.

 

O filme de 1962 lega ainda umas curiosas “previsões”, como num jantar onde um familiar de Michel diz que na Guerra Fria “nem Estados Unidos nem União Soviética ‘prestam’ e que ambos têm medo é da China, que será uma grande potência!”.

 

Apesar do filme ter estreado no Festival de Cannes e ser elogiado pelos companheiros da "Nouvelle Vague", “Adieu Philippine” é um exemplar raro de uma carreira cinematográfica errática para Rozier, que só voltaria a lançar outro filme de ficção em 1971.

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por Roni Nunes às 15:07

IndieLisboa: em busca do "ser português" numa aldeia em Trás-os-Montes

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

IndieLisboa: o Portugal antigo sobrevive numa aldeia de Trás-os-Montes
 

"Bostofrio – Où le Ciel Rejoint la Terre", filme de estreia do realizador Paulo Carneiro, tem sessões no IndieLisboa nos dias 28 de abril (Culturgest) e 4 de maio (cinema São Jorge).

 

O “Bostofrio” do título é o nome de uma pequena aldeia entre as montanhas no Nordeste de Portugal. Pertence ao concelho de Boticas e Paulo Carneiro, assistente de realização de dois filmes de João Viana, foi até lá. A ideia era procurar as suas origens paternas – ir ao encontro das memórias de um avô que não conheceu e não perfilhou os filhos. Mais do que isso, no entanto, embrenhou-se por outras ideias: um retrato, ainda que simbólico, das dicotomias do que é “ser português”…

 

Antes disto, no entanto, foi duro o périplo pelos segredos e tabus que ainda cercam o povo local, à partida muito reticente em mexer no passado.

 

“Quero lá saber do teu avô!”, diz a primeira entrevistada, dando ao início do filme uma forma anedótica. O realizador, no entanto, decidiu manter a conversa com a sua pouco interessada interlocutora. "Sim, ela tem essa maneira de falar, mas há um carinho ali, que se pode notar. E claro que ela sabe que está a ser filmada", recordou.

 

Essa introdução dá um retrato das reticências que cineasta terá de vencer para avançar no percurso. É algo que remete às origens: a vida na pequena localidade nunca foi fácil. "Se for preciso são os teus melhores amigos, ficam zangados se não fores à casa deles, se não comeres qualquer coisa lá. Mas há uma forma rude que vem de um ambiente muito hostil. É algo que dá para ver no filme, é uma população isolada, cercada de montanhas. Cerca de 30 pessoas vivem lá", explica.

 

 

Suspense orgânico

 

Pôr as pessoas à vontade era essencial para abordar segredos e tabus do passado. Foi como se conseguiu criar um suspense orgânico na medida em que a organização do material segue a ordem cronológica em cerca de 80%. Munido de mais conhecimentos revelados por um entrevistado, Paulo Carneiro conseguia aumentar o alcance da conversa a seguir. "O caminho para o final é completamente documental", salienta.

 

Muitos planos são fixos e registam de longe as conversas. É uma questão de pragmatismo de produção tanto quanto de desejo estético. "Sabia que não ia ter tempo para preparar as entrevistas", conta o cineasta, que teve um mês para ficar no local depois de ganhar uma Bolsa para Jovens Criadores do Estado. "Assim, aparecer no filme era também uma forma de ir fazendo o registo ao mesmo tempo que os ajudava a esquecer que estavam sendo filmados".

 

Já em termos estéticos, a ideia era "mostrar que, apesar dos planos serem fixos, havia movimento. Há uma tentativa de criar uma ‘mise-en-scène’ onde tem sempre algo em movimento". Os conceitos são da História Oral, tendência historiográfica que privilegia os depoimentos em primeira pessoa.

 

"Acredito piamente numa história para além da escrita e esta é uma ideia que continuará a ser explorada num dos meus próximos projetos. Aqui queria preservar as falas de Trás-os-Montes, que são belíssimas, com as suas expressões típicas, tenho uma relação de afetividade com este vocabulário. Também li muito Miguel Torga, que escreve bastante sobre a região”, recorda.

 

 

Em busca do “ser português”

 

Desde o início a ideia foi homenagear o pai, uma espécie de sobrevivente de uma época dura. Nascido na pequena aldeia, foi declarado como tendo "pai incógnito", criado pela mãe com problemas psíquicos e ajudada por uma tia num altura de miséria e superstição.

 

Com a faceta pessoal do projeto, no entanto, cruza-se um outro conceito – o das dicotomias ligadas à uma ideia de "ser português". A da existência de um Portugal antigo, com os seus tabus sexuais, a miséria económica e onde os problemas mentais eram vistos como uma espécie de "possessão demoníaca".

 

"Certamente há um paralelismo entre o céu e a terra, o místico e o terreno, Deus e o demónio, especialmente quando percebi que as pessoas ligavam o passado da minha avó a algo infernal. Assim, o resultado final deixou de ser apenas uma procura pessoal minha e tornou-se noutra coisa", concluiu.

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por Roni Nunes às 14:57

"Hip to da Hop": Há "Hip hop português a invadir o IndieLisboa

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

“Hip to da Hop” propõe um mergulho no mundo da cultura muito urbana do hip hop, estilo musical adaptado em Portugal a partir da sua origem do Bronx, bairro nova-iorquino. Surge acompanhado de outras manifestações culturais: o “rap”, o DJ, o “breakdance”, o “grafitti”.

 

O filme tem sessões no âmbito do IndieLisboa nos dias 28, no cinema São Jorge, e 30, na Culturgest, e os cineastas explicaram ao SAPO Mag o que os entusiasmou registar após uma viagem de Norte a Sul do país…

 

SAPO Mag - O subtítulo do vosso filme, "Viagem a Portugal em 4 Vertentes", pressupõe a ideia de deslocação espacial generalizada no país do universo do hip hop e as suas várias manifestações culturais. É um fenómeno curioso quando conectado com as suas raízes, que eram dos bairros negros de grandes cidades norte-americanas...

 

O subtítulo do “Hip to da Hop” é uma pista acerca do tema do filme, que é de facto uma viagem que ambos também fizemos para poder compreender melhor esta cultura. E a melhor parte dela foi termos sido guiados pelas pessoas que entrevistamos - falávamos com alguém que nos levava a outro artista e que, por sua vez, nos indicava um terceiro. Na construção do argumento quisemos provar uma sensação semelhante à que nós vivenciamos, por isso colocamos apenas a voz de quem participa e as imagens e os sítios onde estivemos. Assim deixamos que um “writer” de Lisboa partilhe a sua visão e nos leve até um “B-boy” do Porto e por aí afora.

 

É de facto interessante perceber como é que uma cultura dos Estados Unidos, que nasceu para travar as lutas entre gangues, é importada para Portugal. Ela chega até nós quase vinte anos depois de ter nascido, já sedimentada e cristalizada através dos “medias” e das cassetes. Houve no início um processo natural de imitação em todas as artes, um processo de aculturação. Quando começámos a fundir a cultura portuguesa com a do hip hop o jogo começou a mudar.

 

De certa forma, sentimos que ainda estamos nesse processo e que somos bastante exigentes connosco nesse sentido, há uma demanda profunda no hip hop naquilo que é único e genuíno, na criação de arte que represente o criador e o local em que vive. Essa apropriação, evolução e as transformações que a tornaram numa parte integrante da cultura portuguesa, foram de facto alguns dos motes do nosso filme.

 

"Hip to da Hop" - Aiam

 

Vocês encaram o universo da música hip hop como enquadrada num quadro artístico mais amplo que envolve o "grafitti", o DJ, o rap e o breakdance. Acham que todos esses fenómenos são indissociáveis?

  

Ao longo dos anos tem havido uma perceção errada do que é a cultura hip hop. Muitos julgam que é apenas música ou uma dança. O que nos parece importante perceber é que não são só os elementos que tornam o hip hop em algo cultural, são também os valores e as regras que fazem parte desta cultura. O ponto de discussão que muitas vezes surge é o afastamento físico dos artistas das várias vertentes. Quando a cultura nasce no Bronx, DJ, “B-boys”, “writers” e “rappers” estavam todos próximos porque era ali o núcleo.

 

Quando surge em Portugal eram poucos e, de uma maneira geral, todos se conheciam. As coisas hoje mudaram: a expansão e as revoluções tecnológicas permitiram uma individualização que ao início não existia. É algo óbvio e talvez uma evolução necessária. O que nos interessou sobretudo compreender foram as consequências que isso trouxe e as opiniões sobre este ponto entre os artistas das diferentes gerações. Para muitos o hip hop não existe porque as pessoas não estão próximas. E, para outros, continuará a existir enquanto respeitarmos as mesmas regras. Quem tem razão? É algo interessante no filme: ver pessoas que pertencem à mesma cultura com uma opinião bastante diferente. Enquanto realizadores sentimos necessidade de abordar esta questão.

 

Há um aspeto muito interessante no filme que é o caráter quase didático, no bom sentido, de alguns depoimentos que recolheram entre os artistas. Eles explicam o seu método de trabalho...

 

O caracter didático é, sem dúvida, um dos pontos-chave do filme, embora seja algo que não tenhamos intencionalmente provocado. Ambos aprendemos imenso durante a viagem e isso foi algo que tentámos transmitir – até porque chegamos a ter entrevistas com quase três horas. Vários temas foram abordados nestas conversas. Ficamos fascinados com os diferentes processos criativos dos artistas. Cada um cria à sua maneira com base na sua personalidade e nas suas rotinas. O método de trabalho varia de pessoa para pessoa, de vertente para vertente, de geração para geração. Colocamos isso no filme porque achamos realmente interessante.

 

E, como consequência, existe um papel didático nisso. O nosso objetivo foi sempre criar uma obra cinematográfica interessante, que fugisse do típico estilo documental televisivo e que se tornasse numa peça digna de ser recordada daqui a uns anos. Compreendemos o papel educacional, antropológico e social que possa eventualmente ter. Mas desde inicio que o nosso principal objetivo foi fazer um bom filme.

 

"Hip to da Hop" - Ace & Mundo

 

Outra questão recorrente do filme é o da evolução do hip hop dentro do país. Neste sentido vocês encontram otimistas, para os quais "tudo é válido", e outros que salientam a perda da profundidade poética, política e formal de muitos "rappers". Como vêem esse fenómeno da massificação de um movimento cultural que teve muitas dificuldades em se afirmar no início?

 

Há uma frase que consideramos importante no filme e que, porventura, descreve um pouco estes últimos anos, ou seja, "tudo foi transformado". O filme mostra essas transformações e as evoluções que as diferentes vertentes foram atravessando. Hoje a cultura hip hop de certo modo popularizou-se e, talvez, aquela vertente que melhor reflete isso é o rap. É o estilo que encabeça os maiores festivais de música e é o mais ouvido no mundo inteiro nos serviços de "streaming".

 

As consequências, positivas e negativas, que isso trouxe são naturalmente imensas. Ao início os artistas não eram reconhecidos, as condições técnicas eram baixas, os salários igualmente baixos ou inexistentes. O facto de todos estes pontos se terem invertido acarretou várias mudanças: de um lado, irá sempre haver quem se aproveite para atingir fins financeiros e desvalorize os valores e as doutrinas que regem a cultura. Por outro, no entanto, trouxe melhores condições a todos aqueles que realmente se importam e se preocupam com estes pilares. A discussão não é nova: se analisarmos a história da cultura já era discutido ao início e certamente continuará a ser durante as próximas décadas.

 

Optaram por não usar apenas música de artistas de hip hop, mas também uma banda sonora mais tradicional, mais atmosférica...

 

A banda sonora tem um papel crucial no filme: ambos somos bastante exigentes e nós queríamos ter a música certa nos momentos adequados. Tivemos a oportunidade de trabalhar com artistas que construíram uma sonoridade sublime para a obra.

 

É o caso do António Lopes Gonçalves, que nos transporta para um Portugal quase imaginário através da sua guitarra; dos SleepinPatterns X Lost Soul, que criaram a textura para a maioria do filme, reforçando as emoções, as palavras e toda a componente imagética existente; e os SillabnJay Fella trouxeram a voz e uma mensagem para uma música que faz uma ligação enorme com o filme e tem várias pistas na letra sobre uma das temáticas do "Hip to da Hop". A textura sonora criada agradou-nos tanto que decidimos lançar um álbum de originais depois da estreia. Ver este filme a dar origem a outros projetos é algo que nos satisfaz bastante e é algo que gostaríamos de continuar a fazer

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por Roni Nunes às 14:51

IndieLisboa 2018: Ryuichi Sakamoto: Coda

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18
Artigo originalmente postado no Sapo.
Por Roni Nunes
Diário do IndieLisboa: os diversos tempos de Ryiuchi Sakamoto
 

Há documentários que conjugam com montagem frenética o objetivo do inventário, outros que optam pela longa duração por dificuldade de selecionar o que manter. O que impressiona em "Ryuichi Sakamoto: Coda" é o facto da gestão de informações ter sido organizada de uma forma que permite a aflorar de uma poesia muito particular enquanto nada praticamente falta de uma carreira de quatro décadas. O filme prolonga-se pelos diversos tempos de vida e obra da música, ator e ativista japonês – interligando de forma qualquer invisível os pedaços que compõe uma visão genérica do artista.

 

O filme começa com Sakamoto e um cadáver – mais precisamente o do piano que encontra nas ruínas do desastre de Fukushima. A tragédia sensibiliza-o: toca o piano, circula pela terra devastada, vai a manifestações. A homenagem às vítimas com um momento musical icónico (a execução de “Forbidden Colours” acompanhado de violina e violoncelo) faz a primeira ponte com o seu passado – neste caso a música para “Feliz Natal, Mr. Lawrence”, clássico de Nagisa Oshima (1983) que possibilitou a oportunidade para um dos seus momentos mais famosos.

 

O passado brilhante é inevitável: pioneiro da música eletrónica e do uso da tecnologia com o Yellow Magic Orchestra ("o que me interessa não é destruir a tecnologia, voltar atrás, mas encontrar as suas falhas e ruídos", dizia na altura), o facto do seu trabalho mais conhecido do grande público (a estupenda banda sonora de "O Último Imperador") sair de processos criativos exaustivos e pedidos repentinos de Jeremy Thomas ou comentários desapiedados de Bernardo Bertolucci, os esforços extremos para contornar os problemas de saúde porque "não podia recusar um pedido de Alejandro Inharritu" (viria a ser a música de "The Revenant") e assim por diante.

 

No presente do filme, Sakamoto está a lutar contra um cancro. Poucas cenas, tudo dito: dificuldade em comer, alimentos "saudáveis" cujo um mero olhar demonstra o quanto eles lhe parecem "saborosos". Quando está melhor, o presente traz-lhe as alegrias do processo criativo: o ballet sem gravidade de "Solaris" (e o seu coral de Bach na banda sonora), o livro de fotografias extraídas dos seus filmes ("Instant Light"), a orquestra de sons da natureza de alguns dos seus filmes: Tarkovsky é agora a sua fonte de ligação com a criação.

 

Entre o passeio no tempo, longínquo, recente e presente, reside a graça de um filme que diz muito sem dizer tudo (até porque o "tudo" não existe) e onde vida e obra fazem uma comunhão solene para significar a fé de um homem na sua arte.

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por Roni Nunes às 14:37

IndieLisboa 2018: Funeral Parade of Roses

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 
Diário do IndieLisboa: a “Nouvelle Vague” perversa dos japoneses
 

No dealbar dos 60s, as muitas transgressões das diversas "new waves" atingiam novos patamares. "Funeral Parade of Roses", em 1969, surge no final de uma década pontuada por experiências de nomes famosos no Ocidente como Nagisa Oshima e Shohei Imamura, a espinha dorsal da Nova Vaga japonesa.

 

Neste filme, no entanto, reunia-se um cocktail explosivo com sexo, drogas, "gore", transsexualidade, incesto, experimentalismos cinemáticos diversos – tudo dentro sob o lema da liberdade total. O responsável pela aventura foi Toshio Matsumoto, falecido no ano passado; quem financiou a aposta foi a Art Theatre Guild, que por essa época e até os anos 80 foi a grande distribuidora das propostas “avant-garde” nipónicas.

 

Obviamente para tais “desvios” de conduta estilístico/temática não poderia existir algo como um arco narrativo. Um dos fios condutores, ainda assim, é o personagem de Edie (o ator chamado apenas de Pitâ, ou “Peter”, em inglês, que ainda teria continuidade na carreira no cinema e na TV depois do filme), um transsexual que circula pelo escondido circuito homossexual de Tóquio. Tem os favores do dono do lugar onde trabalha, a inimizade de uma rival, enquanto relembra atrocidades passadas e espreita sem saber um terrível "twist" final.

 

Na esteira do que fazia no mundo ocidental um realizador como Jean-Luc Godard, Matsumoto propõe utilizações singulares/reflexivas sobre velhos recursos da linguagem cinematográfica. Em momentos inesperados, faz cortes abruptos (a cena do chuveiro), trucagens elementares a Meliés, usa o acelerado (muito já se disse sobre a influência sobre “Laranja Mecânica”, com admissões do próprio Kubrick), de entretítulos muito godardianos e experimentações com a montagem sonora.

 

Para enquadrar este caos aparente, a metalinguística está em toda parte veiculando, seja autoironia, seja declarações de princípios – como quando o realizador de um filme "underground" proclama: "Todas as definições de filmes foram apagadas, todas as portas estão abertas agora". Quanto a autoparódia, outro diálogo: depois de um estudante ter apresentado à audiência um filme "experimental", ele pergunta a um membro da mesma: "Mas o seu corpo deve ter sentido algo da experiência". Resposta: "Sim, mas prefiro drogas verdadeiras".

 

Este é, aliás, o começo de uma longa sequência guiada unicamente pelo princípio do prazer absoluto: erotismo livre, drogas a rodo, rock’n’roll a embalar como num transe tribal. Há iguarias adicionais: bizarrices sexuais com apoteoses "gores" de Sion Sono ou Takashi Miike aqui com um remoto ancestral – num estranhíssimo quadro edipiano que inclui homicídios e violência gráfica. Os dourados anos 60 brilham na lâmina de Toshio Matsumoto.

 

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por Roni Nunes às 13:54


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  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...



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