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IndieLisboa 2018: La Niña Santa

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

por Roni Nunes

 

 

Lucrecia Martel é uma realizadora de sugestões, de insinuações, de estados mentais e instituições de relações aparentemente fechadas, como a família ou a religião. "La Niña Santa - A Rapariga Santa" é dos seus filmes mais ardilosos, um verdadeira labirinto de ambiguidades.

 

É o segundo filme da realizadora e desloca-se dos cenários rurais de "O Pântano" e do extrato social da aristocracia rural para os interiores de um hotel num congresso de médicos. Pelo meio há adolescentes em chamas numa fase pouco propícia à santidade, adultos no limite da carência desesperada e uma mar de atitudes pouco recomendáveis.

 

O filme começa com uma evangelizadora emocionada a cantar música sacra para um grupo de raparigas, entre elas as duas protagonistas, Amália (María Alché) e Josefina (Julieta Zylberberg). Elas não estão assim tão embevecidas e todas as possiblidades de elevação religiosas serão soterradas ao longo do filme mediante enxurradas de descrições sexuais muito pouco subtis. Ainda assim, a primeira embarca numa “missão” quando fica inebriada pelo assédio mais ultrajante de um médico do congresso, o dr. Jano (Carlos Belloso). Este, por seu lado, é o objeto de interesse da sua mãe, Helena (Mercedes Morán), uma mulher divorciada e sensual.

 

Não há nudez, mas há sexo um pouco por todo o lado, na medida que os elementos habituais da iconografia de Martel vão sugerindo diferentes significados (água, piscina, cabelos) e insinuando-se por mais uma história íntima: cenários fechados, poucos exteriores, muitos "closes" e fora de campo. Com um subenredo explosivo, Martel ainda se delicia a deixar um final potencial e novelescamente dramático para… a imaginação do espectador!

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por Roni Nunes às 20:53

IndieLisboa 2018: As Boas Maneiras

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: o engenho da subtileza
 

Filmes como "As Boas Maneiras" demonstram que as possibilidades das fantasias góticas são intermináveis. Marco Dutra e Juliana Rojas já andam há alguns anos a espalhar pelos grandes festivais de cinema mundial as suas histórias. Um deles, "Trabalhar Cansa", já andou por Cannes.

 

Dividido em duas partes, o seu mais recente trabalho narra a história de duas mulheres solitárias: uma rica (Marjorie Estiano), ainda que em situação financeiramente duvidosa, contrata outra (interpretada pela portuguesa Isabél Zuaa) para ajudá-la a tomar conta do luxuoso apartamento onde vive e, principalmente, do seu filho que está para nascer. No entanto, a sina da “baby sitter” será testemunhar estranhíssimos acontecimentos que vão condicionar a sua vida para sempre – tal como narra a segunda parte do enredo e sobre a qual nada se deve revelar! Aliás, como um filme que vai se descortinando aos poucos, quanto menos se souber, maiores as “alegrias”.

 

O visual é cortesia do português Rui Poças, também presente no IndieLisboa no ensolarado "Zama", de Lucrecia Martel. A ideia, bem-sucedida, foi recriar uma São Paulo em tons de fábula, onde os arranha-céus e as pequenas vivendas da periferia servem para satisfazer o desejo elementar de toda a história "gótica", entendida aqui no mais vasto significado de uma palavra imprecisa: retirar os personagens da banalidade quotidiana e levar com elas o espectador ao mundo da fantasia.

 

"As Boas Maneiras" é um filme vigorosamente destemido. Primeiro na questão dos géneros: essencialmente um drama com toques de horror (ou seria o contrário?), tem suspense, humor, animação e, o cúmulo, música. Sobrenatural aqui é como tamanho amontoado de ingredientes não cai no ridículo e, aliás, nem sequer na paródia: leva-se "As Boas Maneiras" a sério até o fim.

 

Há "gore" em doses suculentas e um monstro. Este último é um capítulo à parte, possibilitado pelo tecnologia mais barata e pelo sentido de credibilidade que os realizadores conseguiram imprimir a todo o filme. De resto, Rojas e Dutra entram imperiais no mundo do abjeto: chocar é bom e faz crescer. Não é para muitos, mas é impressionante.

 

E há as entrelinhas: "As Boas Maneiras" é um filme sobre dicotomias de um Brasil tão compreensível quanto contraditório. Sob o pano de fundo das questões femininas, são do mesmo sexo (homossexualismo), de diferentes extratos sociais (abuso de uma sobre a outra) e uma ser branca e a outra negra (racismo).

 

Dutra e Rojas sugerem uma diferença crucial em termos de fantasias góticas. A alteridade não é o Outro, o Estrangeiro: o mal vem de dentro, é uma criatura engendrada no seio da sociedade e, em última análise, no interior de cada um. E para aplacar essa fúria primitiva não há tais remédios como a etiqueta – não há nenhum compêndio de boas maneiras que possa lidar como insublimável.

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por Roni Nunes às 20:47

IndieLisboa 2018: Desolation Center

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

Um momento histórico que não desperta boas memórias, marcado por conservadorismo e repressões violentas, foi a era-Reagan – espelho do que acontecia um pouco por todo o lado no início dos anos 80. De uma necessidade de ação libertária e utópica nasceu o "Desolation Center" – mais que um evento, ou melhor, vários deles, um “conceito”. Basicamente, Stuart Swezey, o idealizador, convenceu algumas bandas e alguns muito bem dispostos fãs a embarcar em autocarros para o deserto e tocar. São “festivais” hoje considerados como embriões de mega-eventos posteriores, como Lollapalooza e Coachella.

 

O "punk", como evidente em várias propostas do IndieMusic desta edição, segue incontornável como pontapé para as mais diversas liberdades e tomadas de posição. Também aqui tudo começa com eles e uma necessidade desesperada em fugir a uma polícia, que a estas alturas ataca com o pelotão de choque todos os concertos de punk rock. Um músico dos icónicos Black Flag, a dada momento, assegura a uma apresentadora de televisão, ignorante e sensacionalista como é habitual, que "a polícia representa a nova força neonazi".

 

Há momentos muitos especiais: Mark Pauline, um verdadeiro artista da era industrial (e bélica), responsável por brincadeiras muito perigosas, é um convidado de um dos concertos no deserto. Ele termina por criar um belo simulacro de fim do mundo, perfeitamente completado pelos Einstürzende Neubaten no alinhamento – isso em 1984, quando andavam no auge das suas próprias experimentações com percussões do mundo “real”. Assim, "noise" e explosões conjugam-se na distância do deserto para alguém resumir o espírito de felicidade experimentado pelos presentes: “anarquia total!!!” Por outras palavras, o êxtase do caos.

 

Tudo muito espontâneo e, certamente, ilegal. Estes empreendimentos muito particulares, que ainda terão nas suas fileiras nomes como os dos Sonic Youth e entre os entusiasmados espectadores Suzi Gardner (protagonista em outro filme do IndieMusic sobre a sua banda, as míticas L7), até fazem o empreendedor e também realizador do filme, Swezey, comparar-se a Fitzcarraldo, o personagem homónimo do clássico de Werner Herzog que coordenava o transporte de um navio pelo meio da floresta amazónica...

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por Roni Nunes às 20:10

IndieLisboa 2018: La Ciénaga

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: a estreia visceral de Lucrecia Martel
 

 

Calor, bêbados e animais mortos juntam-se num simbólico “pântano” na obra de estreia de Lucrecia Martel, "La Ciénaga", que em Portugal se chamou precisamente "O Pântano".

 

Em 2001, esta realizadora de uma longínqua Salta, cidade de 600 mil habitantes no extremo Noroeste argentino, logrou dar uma contribuição decisiva para a implantação do Novo Cinema Argentino no circuito internacional. Na produção, obteve os préstimos de Lita Santic, também responsável pela estreia de Pablo Trapero dois anos antes com “Mundo Grua”.

 

La Ciénaga é uma pequena localidade que efetivamente existe; mas também significa pântano, nome simbólico mais do que apropriado para aquilo que segue. Martel pinta as tonalidades deste retrato de família com uns pouquíssimos planos iniciais: os copos, a floresta, o animal na lama, a piscina suja e, principalmente, um bando de adultos completamente inertes. Quando Mecha (Gabriela Borges) cai, acusando os efeitos do álcool e cortando-se com alguma gravidade, serão as adolescentes que dormitavam dentro da casa a surgirem em seu socorro. Neste ambiente de decadência mórbida, mais ninguém consegue fazê-lo.

 

O filme não tem uma história propriamente dita e vão-se interligando, aparentemente ao “calhas”, acontecimentos fortuitos, uns mais importantes do que outros e o onde é o próprio quotidiano que pode fornecer os maiores perigos. Mecha tem uma prima, Tali (Mercedes Morán), que se inscreve entre as típicas “pessoas comuns” do universo de Martel – uma provinciana de classe média baixa que inveja a prima “rica” e só diz banalidades. Mas também tem outra finalidade: a ideia de família “normal”.

 

Esta, obviamente, é um mito; há adolescentes em plena pulsão sexual (Leonora Balcarce), pela carência e o desejo homossexual (Sofio Bortolotto), há o seu irmão mais velho (Juan Cruz Bordeu) um “engatatão” que vive com a ex-amante do pai, há Isabel (Andrea López), uma criada tratada como tal (“índia carnavaleira”, acusam), num papel crucial. E, sempre, muitas e ruidosas crianças.

 

Outro dos seus temas é a religiosidade – não a “espiritual”, mas como representação das demandas supersticiosas da população. Mais do que crenças em santas padroeiras, “virgens” e aparições, estas chegam a todos via televisão, esta revelando-se um meio tão importante para difusão da alienação quanto o seu conteúdo. Será um tema mais explorado no filme a seguir, "La Niña Santa" ["A Rapariga Santa", 2004] – embora já se anuncie aqui o seu desencanto laico como a última fala da personagem de Moni.

 

"O Pântano" é a porta de entrada para os perigos do quotidiano e os retratos da "gente comum" de Martel – onde pela última vez (considerando os seus três primeiros filmes) os exteriores serão relevantes – ressaltando, no entanto, que servem para reforçar a clausura do indivíduo, um dos temas dos seus dois filmes seguintes.

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por Roni Nunes às 19:46


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...



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