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IndieLisboa 2018: Milford Graves Full Mantis

por Roni Nunes, Quarta-feira, 02.05.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

Milford Graves, baterista que começou a sua carreira nos anos 60 e é considerado um dos inventores do “free jazz”, está mais conectado ao mundo dos vivos. Se na história ele é considerado o homem que libertou a batida dos tempos definidos, ele aqui conta como estas alterações estão impregnadas de uma base filosófica e experimental.

 

Jake Meginsky e Neil Young viram estrear em Roterdão essa obra que, de toda a secção IndieMusic, é das que mais tentam fazer jus, em termos de linguagem cinematográfica, a um homem que conjuga em si a rebelião com a forma. O filme desenrola-se entre iconografia sugestiva (máscaras e estátuas, africanas ou pré-Clássicas), passagens em preto-e-branco, cortes abruptos, uso do "split screen", performances a solo e um repouso no jardim onde Graves aparece pela primeira vez manifestando as suas filosofias.

 

"Milford Graves Full Mantis" exprime ainda, com longas filmagens amadoras feitas durante acontecimentos remotos, os seus conceitos inventando uma nova forma de artes marciais ou tentando atingir a emoção de crianças autistas no Japão com uma performance visceral.

 

Uma descoberta que o deixa particularmente satisfeito é o álbum “Heart Recordings”, onde um médico gravou os batimentos do coração. Graves fez os seus próprios: há de ser um dos primeiros momentos musicais saídos de uma experiência com um eletrocardiograma. Isso para estipular que se os batimentos do coração não são ordenados, porque é que a percussão haveria de ser?

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por Roni Nunes às 23:23

IndieLisboa 2018: La Mujer sin Cabeza

por Roni Nunes, Quarta-feira, 02.05.18

Artigo originalmente postado no SAPO. 

Por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: uma mulher sem cabeça e um homem com muitas ideias
 

Depois dos médicos de "A Rapariga Santa", os filmes sobre as pessoas "comuns" de Lucrecia Martel agora escolhem uma dentista, Verónica (María Onetto) como protagonista. Nas suas classes médias, pequenos dramas podem esconder grandes tragédias, bem como um estatuto social fossilizado. Neste caso, a sua heroína conduz por uma pequena estrada interior sem movimento. Quando vai atender o telemóvel sente que o carro choca com algo que ela não distingue. Pelo espelho retrovisor vê um cão morto; mas no vidro do carro estão marcas de pequenas mãos humanas.

 

Num filme de Martel essa premissa de “thriller” certamente não significa que haverá uma narrativa linear e algo semelhante ao que já se encontra às dúzias no cinema comercial. Mesmo assim, esse fio condutor serve para levar o filme – que, no entanto, enriquece noutra perspetiva.

 

O início é representativo: no momento do acidente, a câmara não larga Verónica. Não há planos gerais para situá-la num espaço abrangente nem tampouco um olhar subjetivo. O que ela vê permanece fora de campo, mas "como" ela vê é o que interessa. Pois este é o início de um processo de desintegração mental e simbólica. Em sintonia com o título do filme, a protagonista vai entrando num estado de desfragmentação da identidade e os outros vão quase impercetivelmente tomando as decisões por ela. Ao mesmo tempo, a perceção do mundo exterior vai sendo alterada – ao ponto de não saber se o que eventualmente viu ou viveu realmente aconteceu (conforme sugerido no último terço).

 

A situação também evolui ao ponto de ela ter dificuldade em reconhecer-se: enquanto todos parecem notar o mau estado do seu cabelo (uma metáfora recorrente nos filmes da realizadora), ela tenta uma transformação e um rejuvenescimento quando aparece com ele colorido e com novo penteado.

 

No todo a alteração é para pior: Martel retoma pressupostos de "O Pântano" e com os seus signos de fossilização (há uma cena brutal com um animal morto na cozinha) ligados também à questão social resume o tema num diálogo sugestivo. Quando Verónica vai visitar uma tia com Alzheimer e a sua casa infestada de "mortos" – espíritos que por lá "transitam", esta última diz: “Se vocês os ignorar, eles vão embora. Eu preferia a modernidade. Aqui você move-se e tudo à volta guincha".

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por Roni Nunes às 23:12

IndieLisboa 2018: Matangi/Maya/M.I.A.

por Roni Nunes, Quarta-feira, 02.05.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

Os "medias" não ficam muito bem na fotografia em "Matangi/Maya/ M.I.A.", de Steve Loveridge. A cantora e compositora M.I.A. poderia viver sossegada na sua qualidade de estrela pop se resolvesse fazer o que a maior parte da humanidade faria no seu lugar – borrifar-se para tudo e usufruir de fama e fortuna. Em vez disto meteu-se numa guerra contra o "establishment" da comunicação social, radicalmente intolerante a desvios da norma – ou seja, a do entretenimento acéfalo e apolítico em estado puro.

 

M.I.A. nasceu no Sri Lanka e mudou-se com a família para Londres aos oito anos para fugir de uma guerra civil destinada a uma vida longa. O pai, membro dos Tigers Tamil, ficou. Com momentos intermitentes de paz, o conflito durou quase 26 anos. Pior: terminou em acusações de genocídio à minoria "tamil", a qual pertence, crimes contra a Humanidade e a abstenção das Nações Unidas em evitar os massacres.

 

M.I.A. resolveu denunciar isso tudo nos "media" das democracias ocidentais: acabou refém de um contradiscurso (no Sri Lanka os rebeldes são designados como "terroristas") e de tentativas mais ou menos bem-sucedidas dos apresentadores de televisão ocidentais em retirar o poder dos seus discursos (há pelo menos um momento notável neste sentido exibido no filme). A situação "piorou" quando a causa foi estendida a palestinianos e povos africanos e a "rapper" garantiu, desde o seu primeiro álbum, um rígido controlo para entrar e sair dos Estados Unidos.

 

Quanto à música, também por lá anda. A cantora fala de processos de escrita e criação e o filme acompanha paralelamente uma carreira que conta com cinco álbuns a reunir um raro consenso de sucesso comercial com críticas positivas. Conforme declara no início, ela estaria enterrada no mundo do álcool e das drogas se não se expressasse convenientemente. Mais algum artista alinha?

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por Roni Nunes às 23:05

IndieLIsboa 2018: O Processo

por Roni Nunes, Quarta-feira, 02.05.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: dia de farsas políticas, nos gabinetes, nos “medias”, no mundo todo
 

O filme de Maria Augusta Ramos vem de uma grande ovação no Festival de Berlim e venceu por lá um prémio do público. No Brasil estreia em maio, onde, numa país politicamente muito polarizado num ano eleitoral, poderá revestir-se de um significado ainda maior. Essencialmente, "O Processo" segue os bastidores da deposição de Dilma Rousseff em 2016, revelando no conjunto a fragilidade jurídica da acusação e a execução de um plano parlamentar baseado no apoio dos grandes grupos de comunicação.

 

A referência ao famoso livro de Kafka do qual é extraído o título dá conta de um alegado crime que não se consegue provar, gerando uma procura incessante de novas razões para justificar uma condenação. O gabinete jurídico responsável por defender a então presidente Dilma Rousseff sabe desde o início que o "processo" de destituição não será uma questão legal, mas de maiorias parlamentares. E que o destino da presidente está selado desde muito antes.

 

A acusação contra ela conforme levantada pelos líderes da oposição ao governo (o principal articulador visível, Eduardo Cunha, acabaria arruinado e preso por corrupção durante o andamento do processo), sem imputação de crimes maiores, baseia-se em alguns imbróglios burocráticos presente num repasse de verbas para os agricultores. A argumentação é irrelevante.

 

A apreciação de "O Processo" não depende de "lados" onde se queira estar e esse é o grande mérito do filme. Com uma análise mais sóbria e menos fervorosa do que a princípio poderia parecer (o filme passa longe de um mero manifesto a favor de Dilma), a obra retira o primitivismo da vivência pública da política para levá-la para o campo das estratégias racionais dos gabinetes, onde a história é efetivamente decidida.

 

No mundo fora deles, no entanto, a política raramente tem a ver com estratégia e uso da razão e os "media" fazem o seu trabalho ao estimular a reação emocional através da forma como entrega uma suposta "realidade" aos espectadores de televisão. Neste sentido, há um espantoso "mea culpa" de um membro do Partido dos Trabalhadores ameio, que fala de "negligência" da máquina governamental em relação ao poder dos "media" e do falhanço nas políticas adotadas, baseadas nas concessões de canais a supostos apoiantes.

 

Obviamente o fenómeno não é brasileiro: há um depoimento de uma simpatizante (da defesa) francesa sobre ser impossível veicular material de apoio na imprensa do seu país porque "não existe imprensa livre e eles agora estão focados nos Jogos Olímpicos". Pode-se acrescentar a isso a ingenuidade de um comentário de Dilma a propósito das redes sociais na democracia pois, como se sabe, estas não fazem mais do que aquilo a que os sociólogos chamam de "ruído".

 

Se o final da história toda a gente já sabe, a emoção contida com que Dilma cita um poema de Maiakovski no dia da destituição mostra de forma clara a separação que se opera entre ruína política e dano pessoal. Se a injustiça é flagrante (derrubar por "corrupção" uma presidente sem qualquer acusação formal neste sentido), de outro há resignação aparente mediante um jogo que não poderia ter vencido. Mais do que um filme, "O Processo" é um pedaço de história em andamento, já que agora se vive um novo estágio da estratégia conservadora: a prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

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por Roni Nunes às 19:44

IndieLisboa 2018: La Niña Santa

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

por Roni Nunes

 

 

Lucrecia Martel é uma realizadora de sugestões, de insinuações, de estados mentais e instituições de relações aparentemente fechadas, como a família ou a religião. "La Niña Santa - A Rapariga Santa" é dos seus filmes mais ardilosos, um verdadeira labirinto de ambiguidades.

 

É o segundo filme da realizadora e desloca-se dos cenários rurais de "O Pântano" e do extrato social da aristocracia rural para os interiores de um hotel num congresso de médicos. Pelo meio há adolescentes em chamas numa fase pouco propícia à santidade, adultos no limite da carência desesperada e uma mar de atitudes pouco recomendáveis.

 

O filme começa com uma evangelizadora emocionada a cantar música sacra para um grupo de raparigas, entre elas as duas protagonistas, Amália (María Alché) e Josefina (Julieta Zylberberg). Elas não estão assim tão embevecidas e todas as possiblidades de elevação religiosas serão soterradas ao longo do filme mediante enxurradas de descrições sexuais muito pouco subtis. Ainda assim, a primeira embarca numa “missão” quando fica inebriada pelo assédio mais ultrajante de um médico do congresso, o dr. Jano (Carlos Belloso). Este, por seu lado, é o objeto de interesse da sua mãe, Helena (Mercedes Morán), uma mulher divorciada e sensual.

 

Não há nudez, mas há sexo um pouco por todo o lado, na medida que os elementos habituais da iconografia de Martel vão sugerindo diferentes significados (água, piscina, cabelos) e insinuando-se por mais uma história íntima: cenários fechados, poucos exteriores, muitos "closes" e fora de campo. Com um subenredo explosivo, Martel ainda se delicia a deixar um final potencial e novelescamente dramático para… a imaginação do espectador!

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por Roni Nunes às 20:53

IndieLisboa 2018: As Boas Maneiras

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: o engenho da subtileza
 

Filmes como "As Boas Maneiras" demonstram que as possibilidades das fantasias góticas são intermináveis. Marco Dutra e Juliana Rojas já andam há alguns anos a espalhar pelos grandes festivais de cinema mundial as suas histórias. Um deles, "Trabalhar Cansa", já andou por Cannes.

 

Dividido em duas partes, o seu mais recente trabalho narra a história de duas mulheres solitárias: uma rica (Marjorie Estiano), ainda que em situação financeiramente duvidosa, contrata outra (interpretada pela portuguesa Isabél Zuaa) para ajudá-la a tomar conta do luxuoso apartamento onde vive e, principalmente, do seu filho que está para nascer. No entanto, a sina da “baby sitter” será testemunhar estranhíssimos acontecimentos que vão condicionar a sua vida para sempre – tal como narra a segunda parte do enredo e sobre a qual nada se deve revelar! Aliás, como um filme que vai se descortinando aos poucos, quanto menos se souber, maiores as “alegrias”.

 

O visual é cortesia do português Rui Poças, também presente no IndieLisboa no ensolarado "Zama", de Lucrecia Martel. A ideia, bem-sucedida, foi recriar uma São Paulo em tons de fábula, onde os arranha-céus e as pequenas vivendas da periferia servem para satisfazer o desejo elementar de toda a história "gótica", entendida aqui no mais vasto significado de uma palavra imprecisa: retirar os personagens da banalidade quotidiana e levar com elas o espectador ao mundo da fantasia.

 

"As Boas Maneiras" é um filme vigorosamente destemido. Primeiro na questão dos géneros: essencialmente um drama com toques de horror (ou seria o contrário?), tem suspense, humor, animação e, o cúmulo, música. Sobrenatural aqui é como tamanho amontoado de ingredientes não cai no ridículo e, aliás, nem sequer na paródia: leva-se "As Boas Maneiras" a sério até o fim.

 

Há "gore" em doses suculentas e um monstro. Este último é um capítulo à parte, possibilitado pelo tecnologia mais barata e pelo sentido de credibilidade que os realizadores conseguiram imprimir a todo o filme. De resto, Rojas e Dutra entram imperiais no mundo do abjeto: chocar é bom e faz crescer. Não é para muitos, mas é impressionante.

 

E há as entrelinhas: "As Boas Maneiras" é um filme sobre dicotomias de um Brasil tão compreensível quanto contraditório. Sob o pano de fundo das questões femininas, são do mesmo sexo (homossexualismo), de diferentes extratos sociais (abuso de uma sobre a outra) e uma ser branca e a outra negra (racismo).

 

Dutra e Rojas sugerem uma diferença crucial em termos de fantasias góticas. A alteridade não é o Outro, o Estrangeiro: o mal vem de dentro, é uma criatura engendrada no seio da sociedade e, em última análise, no interior de cada um. E para aplacar essa fúria primitiva não há tais remédios como a etiqueta – não há nenhum compêndio de boas maneiras que possa lidar como insublimável.

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por Roni Nunes às 20:47

IndieLisboa 2018: Desolation Center

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

Um momento histórico que não desperta boas memórias, marcado por conservadorismo e repressões violentas, foi a era-Reagan – espelho do que acontecia um pouco por todo o lado no início dos anos 80. De uma necessidade de ação libertária e utópica nasceu o "Desolation Center" – mais que um evento, ou melhor, vários deles, um “conceito”. Basicamente, Stuart Swezey, o idealizador, convenceu algumas bandas e alguns muito bem dispostos fãs a embarcar em autocarros para o deserto e tocar. São “festivais” hoje considerados como embriões de mega-eventos posteriores, como Lollapalooza e Coachella.

 

O "punk", como evidente em várias propostas do IndieMusic desta edição, segue incontornável como pontapé para as mais diversas liberdades e tomadas de posição. Também aqui tudo começa com eles e uma necessidade desesperada em fugir a uma polícia, que a estas alturas ataca com o pelotão de choque todos os concertos de punk rock. Um músico dos icónicos Black Flag, a dada momento, assegura a uma apresentadora de televisão, ignorante e sensacionalista como é habitual, que "a polícia representa a nova força neonazi".

 

Há momentos muitos especiais: Mark Pauline, um verdadeiro artista da era industrial (e bélica), responsável por brincadeiras muito perigosas, é um convidado de um dos concertos no deserto. Ele termina por criar um belo simulacro de fim do mundo, perfeitamente completado pelos Einstürzende Neubaten no alinhamento – isso em 1984, quando andavam no auge das suas próprias experimentações com percussões do mundo “real”. Assim, "noise" e explosões conjugam-se na distância do deserto para alguém resumir o espírito de felicidade experimentado pelos presentes: “anarquia total!!!” Por outras palavras, o êxtase do caos.

 

Tudo muito espontâneo e, certamente, ilegal. Estes empreendimentos muito particulares, que ainda terão nas suas fileiras nomes como os dos Sonic Youth e entre os entusiasmados espectadores Suzi Gardner (protagonista em outro filme do IndieMusic sobre a sua banda, as míticas L7), até fazem o empreendedor e também realizador do filme, Swezey, comparar-se a Fitzcarraldo, o personagem homónimo do clássico de Werner Herzog que coordenava o transporte de um navio pelo meio da floresta amazónica...

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por Roni Nunes às 20:10

IndieLisboa 2018: La Ciénaga

por Roni Nunes, Segunda-feira, 30.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

por Roni Nunes

 

Diário do IndieLisboa: a estreia visceral de Lucrecia Martel
 

 

Calor, bêbados e animais mortos juntam-se num simbólico “pântano” na obra de estreia de Lucrecia Martel, "La Ciénaga", que em Portugal se chamou precisamente "O Pântano".

 

Em 2001, esta realizadora de uma longínqua Salta, cidade de 600 mil habitantes no extremo Noroeste argentino, logrou dar uma contribuição decisiva para a implantação do Novo Cinema Argentino no circuito internacional. Na produção, obteve os préstimos de Lita Santic, também responsável pela estreia de Pablo Trapero dois anos antes com “Mundo Grua”.

 

La Ciénaga é uma pequena localidade que efetivamente existe; mas também significa pântano, nome simbólico mais do que apropriado para aquilo que segue. Martel pinta as tonalidades deste retrato de família com uns pouquíssimos planos iniciais: os copos, a floresta, o animal na lama, a piscina suja e, principalmente, um bando de adultos completamente inertes. Quando Mecha (Gabriela Borges) cai, acusando os efeitos do álcool e cortando-se com alguma gravidade, serão as adolescentes que dormitavam dentro da casa a surgirem em seu socorro. Neste ambiente de decadência mórbida, mais ninguém consegue fazê-lo.

 

O filme não tem uma história propriamente dita e vão-se interligando, aparentemente ao “calhas”, acontecimentos fortuitos, uns mais importantes do que outros e o onde é o próprio quotidiano que pode fornecer os maiores perigos. Mecha tem uma prima, Tali (Mercedes Morán), que se inscreve entre as típicas “pessoas comuns” do universo de Martel – uma provinciana de classe média baixa que inveja a prima “rica” e só diz banalidades. Mas também tem outra finalidade: a ideia de família “normal”.

 

Esta, obviamente, é um mito; há adolescentes em plena pulsão sexual (Leonora Balcarce), pela carência e o desejo homossexual (Sofio Bortolotto), há o seu irmão mais velho (Juan Cruz Bordeu) um “engatatão” que vive com a ex-amante do pai, há Isabel (Andrea López), uma criada tratada como tal (“índia carnavaleira”, acusam), num papel crucial. E, sempre, muitas e ruidosas crianças.

 

Outro dos seus temas é a religiosidade – não a “espiritual”, mas como representação das demandas supersticiosas da população. Mais do que crenças em santas padroeiras, “virgens” e aparições, estas chegam a todos via televisão, esta revelando-se um meio tão importante para difusão da alienação quanto o seu conteúdo. Será um tema mais explorado no filme a seguir, "La Niña Santa" ["A Rapariga Santa", 2004] – embora já se anuncie aqui o seu desencanto laico como a última fala da personagem de Moni.

 

"O Pântano" é a porta de entrada para os perigos do quotidiano e os retratos da "gente comum" de Martel – onde pela última vez (considerando os seus três primeiros filmes) os exteriores serão relevantes – ressaltando, no entanto, que servem para reforçar a clausura do indivíduo, um dos temas dos seus dois filmes seguintes.

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por Roni Nunes às 19:46

Conhecendo o IndieLisboa

por Roni Nunes, Domingo, 29.04.18

Artigo originalmente postado em Cinema em Cena

 

 

Por Roni Nunes, em Lisboa

 

Todos os anos, em torno de 30 mil pessoas passam pelos diversos espaços onde acontece o IndieLisboa, o maior evento de cinema alternativo da capital portuguesa. A edição de 2018 ocorre entre 26 de abril e 6 de maio e, de acordo com a organização, foram selecionados 82 longas e 164 curtas-metragens de um total de 4.500 filmes recebidos. O Brasil estará presente com quatro projetos.

 

O Cinema em Cena conversou com uma das programadoras, Mafalda Melo (entrevista completa abaixo), sobre a participação brasileira no festival, os destaques para os pouco conhecedores de cinema português e as novidades em geral para a 15ª edição.

 

O festival exibe três seções competitivas: para além de uma dedicada à produção internacional e outra à nacional, há prémios distribuídos também na Silvestre, espécie de panorama genérico do cinema independente mundial. É aqui que se inclui “O Processo”, que passa por Lisboa antes de chegar ao Brasil na senda dos aplausos em Berlim e que promete angariar a simpatia (dado o perfil do público) dos espectadores portugueses.

 

Já o retrato da favela no feminino, conforme o olhar de Juliana Antunes em “Baronesa”, e o universo transsexual de Gustavo Vinagre em “Eu Lembro mais dos Corvos”, fazem ambos parte da Competição Internacional. Antunes foi assistente de realização de um dos projetos premiados no ano passado, “Arábia”, de Affonso Uchoa e João Dumans.

 

Por seu lado, a seção Boca do Inferno cumpre uma das tendências dos grandes eventos internacionais dos últimos anos que é a de incluir propostas mais viscerais, frequentemente ligadas ao cinema de terror. É onde está incluído “As Boas Maneiras”, de Marco Dutra e Juliana Rojas, que completam a participação brasileira no festival deste ano.

 

 Cena de "O Processo", de Maria Augusta Ramos

 

Menção ainda para outras três divisões da programação igualmente importantes: Herói Independente, que este ano inclui retrospetivas dedicadas à argentina Lucrecia Martel e ao veterano francês Jacques Rozier e que destacou, há alguns anos, a obra de Júlio Bressane, a sempre apetecível IndieMusic que, como o nome indica, direciona-se a trabalhos relacionados com música, e Director’s Cut, que exibe filmes que refletem sobre outros filmes já existentes.

 

CINEMA EM CENA: O IndieLisboa tem selecionado sempre cinema independente brasileiro, ajudando a que seja menos desconhecido em Portugal. Como tem sido essa relação ao longo dos anos e que pode dizer sobre os projetos selecionados para esta edição?

 

MAFALDA MELO: O cinema brasileiro tem estado em ebulição nos últimos anos, não só politicamente mas como movimento estético. O IndieLisboa tem prestado muita atenção a essa renovação e tem reforçado a sua presença em Portugal com o acompanhamento de cineastas desta nova geração. Aconteceu com Juliana Antunes, Gustavo Vinagre (ambos mostram a sua primeira longa-metragem em competição neste IndieLisboa), Kleber Mendonça Filho, Marco Dutra e Juliana Rojas, Leonardo Mouramateus, Ricardo Alves Jr., Gabriel Mascaro, Caetano Gotardo, entre tantos outros – a lista é infindável. 

 

Há também o cuidado de olhar para o passado do cinema moderno brasileiro, mostrar os seus alicerces: foi o caso de retrospectiva Julio Bressane, por exemplo. Hoje mais ainda, como festival que olha para o contexto em que se produzem os filmes - seja através do apoio à produção portuguesa, seja através de uma selecção que é também a voz de uma actualidade em constante agitação - é importante mostrar que estamos do lado certo. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, está do lado certo. São de referir, ainda, as diversas parcerias que temos com festivais e programadores no Brasil, que nutrimos ao longo destes 15 anos e às quais queremos dar continuidade.

 

 "As Boas Maneiras", de Marco Dutra e Juliana Rojas

 

Um dos filmes exibidos é “O Processo”. Há uma curiosidade enorme em relação a este filme – principalmente pelas questões políticas. A política no Brasil tem sido muito comentada em Portugal. O que pode adiantar sobre o filme em si e que tipo de debate acha que o filme pode proporcionar aqui em Portugal?

 

“O Processo” é um mundo de possibilidades para um festival de cinema que pretende ter uma voz interventiva. A selecção do filme pareceu-nos óbvia no momento em que o vimos, não só pelo seu inestimável valor fílmico, mas também porque em Portugal temos vivido a turbulência política no Brasil de forma muito próxima. A morte de Marielle Franco e de Anderson Pedro Gomes desencadeou vigílias em 6 ou 7 cidades pelo país. Não me recordo de um tipo de mobilização solidária com outro país que tenha sido vivida de forma semelhante nos últimos anos, penso que nem o impacto dos atentados em França, país onde reside a maior comunidade emigrante portuguesa, gerou tamanha solidariedade, revolta, comoção.

 

A exibição de “O Processo” durante o festival ajuda-nos a dar continuidade ao debate e a refletir sobre uma questão essencial: como pode o Brasil regredir até uma nova era de militarização do estado? É urgente parar este processo que escalou gravemente a partir da destituição de Dilma Rousseff, o “golpe”, que Maria Augusta Ramos documenta de forma extraordinária no filme.

 

Na mesma via, o cinema português não é bem conhecido no Brasil. O que pode dizer sobre os projetos selecionados para o IndieLisboa este ano?

 

Penso que o cinema português viaja cada vez mais, também até ao Brasil. As coproduções e colaborações são frequentes (no IndieLisboa 2018 apresentamos uma colaboração, “Russa” de Ricardo Alves Jr. e João Salaviza) e as internacionalizações de filmes portugueses têm crescido enormemente. Mas, para quem não está tão familiarizado com o cinema português diria que a competição nacional e as sessões especiais são um excelente panorama de um excelente ano de cinema português.

 

Iremos mostrar os filmes absolutamente marcantes de André Gil Mata (“A Árvore”) ou Susana Nobre (“Tempo Comum”), proporcionar a descoberta da voz de Paulo Carneiro (“Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”) regressar ao fabuloso universo de André Santos e Marco Leão (Self Destructive Boys), Filipe Melo (Sleepwalk), Sérgio Tréfaut (Raiva) ou Edgar Pêra ("O Homem Pikante - Diálogos com (Alberto) Pimenta"), para citar apenas alguns dos 49 filmes portugueses que integram a programação do festival.

 

Por fim, pediria que destacasse algumas das novidades da edição deste ano em termos gerais.

 

O IndieLisboa volta a apontar o foco para nomes consagrados do cinema de autor mundial e a revelar um conjunto alargado de novos e promissores autores. Esta mistura constitui uma das características mais importantes do festival desde a sua origem, tal como a igual importância dada a longas e curtas-metragens e à abolição de quaisquer fronteiras de gênero. No fundo, há uma liberdade intrínseca aos filmes selecionados, que percorre também o gesto de programação e a forma como o festival é pensado. Um festival livre, de cinema livre.

 

Esta edição volta, portanto, a fortalecer as suas já reconhecíveis características: uma seleção desafiante; a (re)descoberta de autores através de retrospetivas essenciais, este ano dedicadas a Jacques Rozier e Lucrecia Martel; uma programação noturna de concertos e festas que estende a experiência em sala e põe os filmes a dialogar com a música, com os artistas, com os convidados e com o público; um conjunto de atividades que complementam os filmes e abrem (mais ainda) espaço para debate; uma programação especialmente dedicada a crianças e jovens. 

 

E uma grande novidade: a criação de um Festival Center, um centro nevrálgico para a indústria onde decorrem as Lisbon Screenings, laboratórios, encontros, “masterclasses” e outros eventos para o público profissional.

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por Roni Nunes às 14:56

IndieLisboa 2018: The Night Eats the World

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

O conceito desenvolvido por Richard Matheson em "I Am Legend", nos anos 50, estava destinado à uma vida longínqua. Um homem, que pode ser o último na Terra, um cerco que exige uma organização metódica para sobrevivência, e um exterior infestado de criaturas hostis. George Romero aproveitou a ideia e mudou para sempre a história dos filmes de "zombies" em 1968 com "A Noite dos Mortos-Vivos".

 

Solidão, violência e o fantasma do apocalipse: uma face válida para o glorioso século XXI – que na cinematografia "zombie" arranca a abrir com os mortos-vivos velozes de "28 Dias Depois" e segue alegremente violenta pelos "walking deads" fora.Dominique Rocher ousou inserir mais um na linhagem, "La Nuit a Dévoré le Monde", mostrando que as realizadoras francesas de filmes de terror chegaram para ficar: no passado, a mesma secção do IndieLisboa exibiu a estreia visceral e imaginativa de Julie Ducornau com "Grave".

 

Sam (o norueguês Anders Danielsen Lie, de "Oslo 31 de Agosto") desperta já num cenário propício para um cerco – um apartamento – depois um edifício quase inteiro. A lei da selva segundo Rocher implica, felizmente, bastante sangue nas paredes e cenas de ação bem executadas – como demandam hoje em dia os conhecimentos técnicos tornados cada vez mais elementares e uma tecnologia acessível.

 

Quanto à gestão de tempo, sempre fundamental em histórias minimalistas de sobrevivência, a realizadora percorre esse caminho muitas vezes trilhado com as suas próprias inventices (o toque “Robinson Crusoé” e o sempre imperdível Denis Lavant como o “Wilson” de Sam) e brincadeiras (a piada dos “fãs” a correrem para o concerto do “ídolo”). A despeito do tema, Rocher opta por um cenário ensolarado, onde a música tem um papel importante na sobrevivência mental de Sam – tal como o seu poder de imaginação, responsável por um dos momentos cruciais de revigoração da narrativa perto do fim.

 

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por Roni Nunes às 15:12


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...