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"Hip to da Hop": Há "Hip hop português a invadir o IndieLisboa

por Roni Nunes, Sábado, 28.04.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

Por Roni Nunes

 

 

“Hip to da Hop” propõe um mergulho no mundo da cultura muito urbana do hip hop, estilo musical adaptado em Portugal a partir da sua origem do Bronx, bairro nova-iorquino. Surge acompanhado de outras manifestações culturais: o “rap”, o DJ, o “breakdance”, o “grafitti”.

 

O filme tem sessões no âmbito do IndieLisboa nos dias 28, no cinema São Jorge, e 30, na Culturgest, e os cineastas explicaram ao SAPO Mag o que os entusiasmou registar após uma viagem de Norte a Sul do país…

 

SAPO Mag - O subtítulo do vosso filme, "Viagem a Portugal em 4 Vertentes", pressupõe a ideia de deslocação espacial generalizada no país do universo do hip hop e as suas várias manifestações culturais. É um fenómeno curioso quando conectado com as suas raízes, que eram dos bairros negros de grandes cidades norte-americanas...

 

O subtítulo do “Hip to da Hop” é uma pista acerca do tema do filme, que é de facto uma viagem que ambos também fizemos para poder compreender melhor esta cultura. E a melhor parte dela foi termos sido guiados pelas pessoas que entrevistamos - falávamos com alguém que nos levava a outro artista e que, por sua vez, nos indicava um terceiro. Na construção do argumento quisemos provar uma sensação semelhante à que nós vivenciamos, por isso colocamos apenas a voz de quem participa e as imagens e os sítios onde estivemos. Assim deixamos que um “writer” de Lisboa partilhe a sua visão e nos leve até um “B-boy” do Porto e por aí afora.

 

É de facto interessante perceber como é que uma cultura dos Estados Unidos, que nasceu para travar as lutas entre gangues, é importada para Portugal. Ela chega até nós quase vinte anos depois de ter nascido, já sedimentada e cristalizada através dos “medias” e das cassetes. Houve no início um processo natural de imitação em todas as artes, um processo de aculturação. Quando começámos a fundir a cultura portuguesa com a do hip hop o jogo começou a mudar.

 

De certa forma, sentimos que ainda estamos nesse processo e que somos bastante exigentes connosco nesse sentido, há uma demanda profunda no hip hop naquilo que é único e genuíno, na criação de arte que represente o criador e o local em que vive. Essa apropriação, evolução e as transformações que a tornaram numa parte integrante da cultura portuguesa, foram de facto alguns dos motes do nosso filme.

 

"Hip to da Hop" - Aiam

 

Vocês encaram o universo da música hip hop como enquadrada num quadro artístico mais amplo que envolve o "grafitti", o DJ, o rap e o breakdance. Acham que todos esses fenómenos são indissociáveis?

  

Ao longo dos anos tem havido uma perceção errada do que é a cultura hip hop. Muitos julgam que é apenas música ou uma dança. O que nos parece importante perceber é que não são só os elementos que tornam o hip hop em algo cultural, são também os valores e as regras que fazem parte desta cultura. O ponto de discussão que muitas vezes surge é o afastamento físico dos artistas das várias vertentes. Quando a cultura nasce no Bronx, DJ, “B-boys”, “writers” e “rappers” estavam todos próximos porque era ali o núcleo.

 

Quando surge em Portugal eram poucos e, de uma maneira geral, todos se conheciam. As coisas hoje mudaram: a expansão e as revoluções tecnológicas permitiram uma individualização que ao início não existia. É algo óbvio e talvez uma evolução necessária. O que nos interessou sobretudo compreender foram as consequências que isso trouxe e as opiniões sobre este ponto entre os artistas das diferentes gerações. Para muitos o hip hop não existe porque as pessoas não estão próximas. E, para outros, continuará a existir enquanto respeitarmos as mesmas regras. Quem tem razão? É algo interessante no filme: ver pessoas que pertencem à mesma cultura com uma opinião bastante diferente. Enquanto realizadores sentimos necessidade de abordar esta questão.

 

Há um aspeto muito interessante no filme que é o caráter quase didático, no bom sentido, de alguns depoimentos que recolheram entre os artistas. Eles explicam o seu método de trabalho...

 

O caracter didático é, sem dúvida, um dos pontos-chave do filme, embora seja algo que não tenhamos intencionalmente provocado. Ambos aprendemos imenso durante a viagem e isso foi algo que tentámos transmitir – até porque chegamos a ter entrevistas com quase três horas. Vários temas foram abordados nestas conversas. Ficamos fascinados com os diferentes processos criativos dos artistas. Cada um cria à sua maneira com base na sua personalidade e nas suas rotinas. O método de trabalho varia de pessoa para pessoa, de vertente para vertente, de geração para geração. Colocamos isso no filme porque achamos realmente interessante.

 

E, como consequência, existe um papel didático nisso. O nosso objetivo foi sempre criar uma obra cinematográfica interessante, que fugisse do típico estilo documental televisivo e que se tornasse numa peça digna de ser recordada daqui a uns anos. Compreendemos o papel educacional, antropológico e social que possa eventualmente ter. Mas desde inicio que o nosso principal objetivo foi fazer um bom filme.

 

"Hip to da Hop" - Ace & Mundo

 

Outra questão recorrente do filme é o da evolução do hip hop dentro do país. Neste sentido vocês encontram otimistas, para os quais "tudo é válido", e outros que salientam a perda da profundidade poética, política e formal de muitos "rappers". Como vêem esse fenómeno da massificação de um movimento cultural que teve muitas dificuldades em se afirmar no início?

 

Há uma frase que consideramos importante no filme e que, porventura, descreve um pouco estes últimos anos, ou seja, "tudo foi transformado". O filme mostra essas transformações e as evoluções que as diferentes vertentes foram atravessando. Hoje a cultura hip hop de certo modo popularizou-se e, talvez, aquela vertente que melhor reflete isso é o rap. É o estilo que encabeça os maiores festivais de música e é o mais ouvido no mundo inteiro nos serviços de "streaming".

 

As consequências, positivas e negativas, que isso trouxe são naturalmente imensas. Ao início os artistas não eram reconhecidos, as condições técnicas eram baixas, os salários igualmente baixos ou inexistentes. O facto de todos estes pontos se terem invertido acarretou várias mudanças: de um lado, irá sempre haver quem se aproveite para atingir fins financeiros e desvalorize os valores e as doutrinas que regem a cultura. Por outro, no entanto, trouxe melhores condições a todos aqueles que realmente se importam e se preocupam com estes pilares. A discussão não é nova: se analisarmos a história da cultura já era discutido ao início e certamente continuará a ser durante as próximas décadas.

 

Optaram por não usar apenas música de artistas de hip hop, mas também uma banda sonora mais tradicional, mais atmosférica...

 

A banda sonora tem um papel crucial no filme: ambos somos bastante exigentes e nós queríamos ter a música certa nos momentos adequados. Tivemos a oportunidade de trabalhar com artistas que construíram uma sonoridade sublime para a obra.

 

É o caso do António Lopes Gonçalves, que nos transporta para um Portugal quase imaginário através da sua guitarra; dos SleepinPatterns X Lost Soul, que criaram a textura para a maioria do filme, reforçando as emoções, as palavras e toda a componente imagética existente; e os SillabnJay Fella trouxeram a voz e uma mensagem para uma música que faz uma ligação enorme com o filme e tem várias pistas na letra sobre uma das temáticas do "Hip to da Hop". A textura sonora criada agradou-nos tanto que decidimos lançar um álbum de originais depois da estreia. Ver este filme a dar origem a outros projetos é algo que nos satisfaz bastante e é algo que gostaríamos de continuar a fazer

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por Roni Nunes às 14:51

Festa do Cinema Italiano - entrevista: «Easy» e uma viagem “nada facile”

por Roni Nunes, Sábado, 14.04.18

Artigo originalmente postado em C7nema.

Por Roni Nunes

 

 

O filme esteve em Competição na Festa do Cinema Italiano cuja fase lisboeta termina hoje (12/04) e que segue pelo país afora nas semanas seguintes. O realizador Andrea Magnani discorreu ao C7nema sobre o complicado processo de realização do filme e sobre a criação das várias situações cómicas e caricatas exibidas neste singular ‘road movie’.

 

Do interior de casa para a imensidão, do trajeto conhecido do quarto para a cozinha para as paisagens desconhecidas da remota Ucrânia – frequentemente sem direções e sem entender ninguém. Esse é o processo de Isidoro (o Easy do título, vivido por Nicola Nocella). Após 14 anos deprimido e a viver com a mãe, viciado em pílulas e comida, ele subitamente é atirado numa missão decididamente impossível para alguém como ele.

 

Seu irmão, um empresário meio suspeito, pede-lhe que vá à Ucrânia entregar o cadáver de um operário ilegal morto acidentalmente – jogando este inadaptado social numa trajetória às voltas com um caixão pela imensidão gelada do Leste europeu. São os elementos que fornecem a Magnani boas possibilidades para uma comédia dramática no seu filme de estreia.

 

A produção: uma viagem nada “facile

 

Easy tem o subtítulo de “un viaggio facile facile” – fazendo referência ao irmão na hora de pedir o favor ao protagonista. Antes das odisseias do sorumbático Isidoro, no entanto, Magnani por seu lado viveu as suas próprias peripécias e responde assim à pergunta de se as filmagens também foram “facile facile”.

 

Na verdade foi exatamente o oposto. Comecei a escrever o filme há oito anos atrás. Estávamos quase a começar as filmagens no verão de 2014 mas, no entanto, havia iniciado a guerra na Ucrânia no inverno de 2013. Nem sabíamos naquela altura se haveria filme, pois o governo do país congelou todo o dinheiro. Também desconhecíamos se a nossa coprodutora ucraniana receberia a sua parte e chegamos a pensar que tínhamos perdido o projeto. Mas, passados dois anos, tudo voltou a funcionar. Apesar de ser um filme de baixo custo, fazer um ‘road movie’ nunca é barato e estou muito agradecido ao nosso produtor na Ucrânia, pois graças a ele conseguimos terminar um filme que não foi nada ‘facile, facile’”.

 

A parceria surgiu de um projeto internacional de “workshops” na Grécia e os produtores gostaram muito de uma história que referia a um país oriental da Europa, mas sem determinar qual era. “Eles me convenceram a visitar a Ucrânia para ver se ela servia para o filme. E o país preencheu os requisitos, tinha exatamente o que eu queria, um lugar para a personagem sentir-se desorientada, sem os seus pontos de referência. Ao mesmo tempo tinha um grande potencial em termos de paisagem, como as fábricas antigas da antiga União Soviética”.

 

Andrea Magnani

 

Conexão Ucrânia-China-Geórgia

 

Pelo caminho para uma pequena cidade da Transilvânia, Easy encontra uma polícia aduaneira húngara com elevado sentido de humor, um motorista da Geórgia muito simpático (pelo menos até ele fazer a vida negra ao homem), uma família chinesa com o negócio em declínio e até um padre ucraniano decido a largar a batina para tocar numa banda.

 

Diz Magnani: “Existe uma só personagem principal, era só isso que eu pretendia. Eu não queria ninguém a acompanha-lo durante todo o filme, por isso “envolvi-o” com um caixão, com “alguém” que não poderia falar com ele, não lhe responderia. Mas claro que, como em qualquer ‘road movie’, temos encontros durante a viagem e aí eu quis focar em pessoas que estivessem num processo de mudança, como a minha personagem – que está a deixar a sua vida antiga e a iniciar uma nova. É o caso da família chinesa cujo restaurante está agora fora da rota dos camionistas, está a falir, ao mesmo tempo que a avó está a morrer. Ou do padre que quer ser cantor. Todas elas vivem processos de mudanças e eu estava a pensar nisso quando criei as personagens”.

 

E por que um personagem tão depressivo? “Bom, é assim na vida real. Ao mesmo tempo, numa abordagem cómica temos o preto, o branco e uma série de cinzentos – podemos estar depressivos sem deixar de encontrar momentos irónicos. Era que eu queria para contar uma história – meu desejo era fazer uma comédia com toques poéticos e dramáticos”.

 

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por Roni Nunes às 23:04

A gloriosa história do cinema italiano: uma conversa com o historiador Oreste Sacchelli

por Roni Nunes, Sexta-feira, 06.04.18

Artigo originalmente postado em C7nema.

 

Por Roni Nunes

 


Oreste Sacchelli |© Roni Nunes 

 

O cinema italiano vive. Em Lisboa a Festa do Cinema Italiano decorre entre 4 e 12 de abril – exibindo mais de 50 filmes. Descontadas as obras que compõem a Retrospetiva dedicada a Marco Ferreri, o restante inclui obras recentes. Sobre estes trabalhos, o peso de uma História enorme.

 

O C7nema teve o privilégio de uma longa conversa, repleta de generosidade e sentido de humor, com o crítico e historiador Oreste Sacchelli. Com várias biografias lançadas e um amplo currículo académico, Sacchelli é o diretor artístico do Festival de Villerupt, que já soma 40 edições e é a maior montra do cinema italiano em França – país onde é considerado uma das maiores autoridades do assunto.

 

O resultado foi um amplo afresco sobre as glórias e tormentas de um país onde sempre se esbanjou talento, seja em cinema de género ou de arte, seja nos sucessos de público ou nos achados de vanguarda.

 

Todavia, a ideia aqui foi recuperar memórias de épocas pouco óbvias. Os trechos da entrevista selecionados para a edição final focaram-se, principalmente, naquilo que é menos conhecido. Se o neorrealismo acabou por ser incontornável (a menção, mesmo assim, é breve), o período extraordinário dos anos 60 e 70, responsável por muitos dos mais belos filmes já feitos, ficou de fora. Para efeitos de fidelidade temática, mantiveram-se os títulos originais dos filmes citados.

 

Antes dos americanos: o grande épico italiano

 


Cabíria (1914), um dos primeiros grandes espetáculos italianos

 

Tudo começou por uma vocação para o monumental. David W. Griffith esteve entre as primeiras almas a ficarem fascinadas com espetáculos como Ultimi Giorgi di Pompei (1908), Inferno (1911), ouQuo Vadis? (1913), entre outros – obras monumentais que chegavam a levar três anos para serem finalizadas. Nestes tempos, os italianos circulavam livremente no mercado americano. Foi uma época feliz para a sua indústria, que seria destruída a partir de 1915 durante a 1ª Guerra Mundial antes de culminar com um grande clássico, Cabíria(na imagem acima).

 

Diz Sacchelli: "'Cabíria' é importantíssimo e foi escrito por um dos grandes poetas da época, Gabriele d'Annunzio. Havia essa capacidade enorme de montar um espetáculo com coisas incríveis, como elefantes". Nesta altura vários centros de produção competiam em toda a Itália. "Quando a indústria entra em crise e tudo conflui para Roma, toda esse profissionalismo, esse modo de fazer cinema se fragmenta. Nos anos 20 perdem-se os mercados e pouco ou quase nada sobra".

 

O italiano que canta e o "telefone branco"

 


Sipione o Africano (1936), os italianos aperfeiçoam o espetáculo

 

A indústria entra num estado vegetativo e a chegada do cinema sonoro não ajuda. No entanto, um persistente empresário, Stefano Pittaluga, que havia açambarcado os restos de tudo o que havia soçobrado nos anos 20, logrou convencer o governo fascista a apoiar o cinema no início dos anos 30 – processo atrapalhado com a sua morte prematura. "Basicamente quando os italianos assistiram 'O Cantor de Jazz' lembraram-se logo das possibilidades que poderiam vir de um 'italiano que canta'", brinca Sacchelli.

 

Assim, Mussolini apoiou na construção de estúdios e até enviou o seu genro negociar na América restrições ao número de filmes exportados para a Itália, tal como o reinvestimento destes filmes em produção local. As boas relações acabaria, no entanto, com a Guerra da Etiópia(1936). Mas, como lembra o historiador, não vinha do governo do Il Duce um cheque em branco. "Eles propuseram-se a ajudar, mas a intenção era produzir filmes para distrair as massas, não para educá-las".

 

Um dos produtos marcantes desta política seriam os filmes do chamado "telefoni bianchi" (telefone branco) – alcunha pejorativa criada mais tarde para designar um tipo de comédia ligeira que grassou ao longo da década.

 

De volta ao espetáculo

 


Un Pilota Ritorna (1942): aventuras bélicas

 

Duas décadas de autoritarismo fascista, com as suas guerras, assassinatos, intolerância e torturas, deixaram marcas suficientes para que fossem odiados quando tudo acaba sob as ruínas dramáticas da 2ª Guerra Mundial. No campo cinematográfico, no entanto, as bases do neorrealismo e da indústria dos anos 50 vem desta era negra.

 

O Festival de Veneza surgiu em 1932 e a mítica Cinecittá começa a operar em 1937. O próprio filho de Mussolini, Vittorio, andou metido em novos empreendimentos, como o desenvolvimento do Centro Sperimental di Cinematografia e de revistas de crítica importantes, como a Bianco i Neri, para a qual futuros mestres como Luchino Visconti escreviam. "Foi uma política inteligente", analisa o historiador. "Criaram uma escola onde se pudesse aprender a fazer cinema e, do outro lado da rua, podiam pôr aquilo tudo em prática".

 

Numa altura em que Hollywood aperfeiçoava-se como máquina de propaganda, aplicar este termo pejorativo para nivelar por baixo a produção italiana do período não faz muito sentido. "Claro que uma obra como 'A Pilota Ritorna' (1942), de Rossellini, é um filme de propaganda. Aliás, força aérea, marinha e exército tiveram as suas aventuras heroicas", ironiza. "Mas o importante é o aprendizado que estes e outros filmes trouxeram aos jovens".

 

Scipione Africano (1936), por exemplo, "é um filme terrivelmente racista, que defendia que os etíopes deviam ser submetidos porque faziam parte de uma civilização inferior. Mas importa referir a enorme importância dada ao estilo por estes projetos, para além de todo o desenvolvimento técnico que implicava criar um grande espetáculo. Os mais diversos ramos profissionais de uma produção puderam aperfeiçoar-se".

 

Assim, "... já não são apenas as comédias do 'telefone branco' feitas em linha de produção – em vez disto têm de se criar novos enquadramentos, fazer-se novas experiências, ter mais atenção aos pormenores da espetacularidade".

 

Essa capacidade permite um dos fenómenos artísticos e económicos cruciais dos anos 50 – o "Hollywood sobre o Tibre". "Há essa deslocação da Hollywood para Roma – até porque o 'templo romano' é mais barato", brinca. Essa será a base do luxuriante cinema de género italiano que eclode no final desta década. "Vários nomes importantes, como Sergio Leone, começam aí".

 

O realismo: do "branco-e-negro" para o cor-de-rosa

 


Roma Cidade Aberta (1943): a clássica cena da morta de Pina

 

Sacchelli sintetiza: "O neorrealismo é um fenómeno muito breve e surge no contexto de esperança do fim da guerra. Um jornalista francês escreveu que ele começou com um filme (Roma, Cidade Aberta) e terminou com um discurso" (* Referência ao pronunciamento do primeiro-ministro, Alcide De Gasperi, em 1952, um violento ataque a Umberto D, de Vittorio de Sica, que desestimulou esse tipo de produção a partir daí).

 

Ao mesmo tempo foi um cinema que teve grande apelo temático após o fim da guerra – mesmo em países como os Estados Unidos que, apesar não terem sido teatro dos eventos, tinha os seus próprios mortos e mutilados para contar.

 

Apesar de ter alimentado uma estética nova com a influência mundial que sabe, no começo dos anos 50 o público já passava a ter outras demandas. "Com filmes como 'Due Soldi di Esperanza', em 1951, o cinema italiano toma outro rumo. Neste caso aproveitam-se certos ambientes neorrealistas, as filmagens externas, as paisagens e os dialetos e adapta-se às velhas fórmulas do 'telefone branco'".

 


Due Soldi di Speranza (1951): rumo ao "pink" neorrealismo

 

A fórmula, sarcasticamente designada em italiano como "escrita 'tabolino'", consistia, segundo Sacchelli, nisto: "Bom, temos um homem, uma mulher e 100 minutos de filmes para preencher. Como fazemos?" (risos). Aí apareciam as traições e os ciúmes que iam dar a obras populares como "Pane, Amore e Fantasia" ou, espécie de sequela, "Pane, Amore e Gelosia". "Se fosse a história de uma rapariga que só fazia sexo depois do casamento era uma comédia; se fizesse antes virava um drama de Matarazzo!" (risos).

 

No final da década, mestres como Dino Risi dariam ao "pink neorrealismo", designação que se atribui à tendência, uma acutilância especial ao usar dos seus artifícios para dissecar a sociedade pequeno-burguesa em ascensão. Antes dele, no entanto, o grande ideólogo do neorrealismo, Cesare Zavattini, testava outras formas, como na obra coletiva 'L'Amore in Cittá', por exemplo (realizações de Antonioni, Fellini, Risi, Alberto Lattuada, Carlo Lizzani e o próprio Zavatini). "No filme narravam-se histórias de amor no pós-guerra, onde dava-se grande importância aos espaços, aos locais onde tudo acontecia e o ambiente realista circundante".

 


L'Amore in Cittá (1953): experiências neorrealistas

 

Os anos 80 e a travessia no deserto: crise da indústria, crise de ideias

 

Poucos países podem rivalizar com o que se produziu em Itália a partir da segunda metade dos anos 50 e nos 20 anos subsequentes. "Esse é o período dos grandes mestres, onde o cinema experimental era popular (La Dolce Vita) teve a maior bilheteira de Itália de 1960",produzia-se uma variedade impressionante no cinema de género e a produção italiana corria o mundo. Tal como aconteceu um pouco por todo o lado, em termos económicos aprofunda-se a partir de Star Wars a retomada do mercado pelos americanos, com a infantilização temática do cinema e um retrocesso dramático da diversidade e da experiência que dura até hoje.

 

Segundo Sacchelli, no entanto, não foi só uma crise mercadológica, mas de ideias. "Um dos problemas foi que a geração dos mestres não deixou descendentes. A partir de certa altura os talentos jovens constam-se nos dedos das mãos. Assim houve uma fratura ao longo dos anos 80 e 90 e uma nova geração teve muita dificuldade em impor-se".

 

Ponto de chegada: a vida mexe-se sob o microscópio

 


A Grande Beleza (2013): o novo cinema italiano

 

O festival de Villerupt decorre em outubro/novembro nesta pequena localidade francesa. Mas o evento é grande – o maior de cinema italiano em território francófono. A proximidade com a antiga região do aço (Noroeste da Alemanha) justifica um enorme contingente de descentes de nativos da península mediterrânica. Por lá passa boa parte da produção do país no ano anterior.

 

"Há jovens a fazer belíssimos filmes", diz Sacchelli. "Infelizmente, o cinema italiano já não é distribuído como antes e, mesmo dentro de Itália, os únicos filmes que conseguem números relevantes no 'box office' são as comédias. Para encontrarmos um drama temos que ir ao 40º posto da tabela – e estamos a falar de um filme oscarizado – como, por exemplo, 'A Grande Beleza'".

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por Roni Nunes às 00:16

Entrevista com Fernando Vendrell; amor e morte na Évora dos anos 50

por Roni Nunes, Quinta-feira, 29.03.18

Entrevista originalmente postada no Sapo.

 

“Aparição” estreou nas salas portuguesas na última quinta-feira.

 

A adaptação da obra de Vergílio Ferreira mergulha na vida de Évora dos anos 50, abordando a vida de um jovem professor idealista cujo destino cruza-se com o de três irmãs dentro de um ambiente repressivo e conservador.

 

O SAPO Mag conversou com o realizador, Fernando Vendrell, sobre a sorte de ter Victória Guerra como o vulcão feminino que provoca o descontrole do protagonista (vivido por Jaime Freitas, protagonista de outro trabalho recém-estreado, “Amor Amor”), as muitas questões agradavelmente filosóficas propostas pelo material de origem e até alguns episódios caricatos, como “um obsessivo grafiteiro de Évora” que andou a atrapalhar a produção…

 

 

 

RECUO NO TEMPO E NO ESPAÇO

 

“Este filme representa uma rutura na minha carreira”, diz Vendrell.

 

“As minhas três primeiras longas-metragens ["Fintar o Destino", 1998; "O Gotejar da Luz",  2002; "Pele", 2006] fecham entre si um ciclo africano, que abordava questões de identidade e colonialismo”, recorda.

  

A preocupação de estar a adaptar uma obra que pudesse parecer fora de tempo ao espectador atual esteve presente desde o início.

 

“Nós fizemos um esforço para ser contemporâneo. No início havia essa ideia de estar a adaptar um romance datado, de estar a produzir um filme que as pessoas veriam por obrigação – até por ser muito difícil para os atores falarem da forma como os diálogos estavam no livro”, explica o realizador.

 

Com esse sentimento em mente, o guião inicial, que reproduzia vários diálogos do próprio livro, foi sendo reescrito.

 

“Hoje pode-se perceber no filme que existe um grande diálogo com a contemporaneidade – de uma forma diversa há muitos temas que permanecem. Hoje não há censura, castração, repressão, mas ainda existem sistemas na sociedade que não nos obrigam a pensar, dificultam a afirmação da diferença e não capitalizam da melhor forma as valências e energias próprias da juventude”, observa.

 

 

DO HUMANISMO AO INDIVIDUALISMO

 

Sem atirar-se de uma forma cega no “fait-divers”, “Aparição” não descura os elementos filosóficos. Nos anos 50, o humanismo e a fé no futuro iam cedendo terreno a outros valores e a própria obra de Vergílio Ferreira trata essa transição.

 

Como analisa o cineasta, “essa obra é em si já um momento de mudança na carreira do escritor, que caminha em direção ao neorrealismo, onde havia questões humanísticas de alguma forma ligadas a questões sociais de igualdade, solidárias. E passou para um conteúdo muito mais filosófico, mais ligado ao individualismo, à sua maneira de ser e ao significado da vida”.

 

Assim, “no romance ele auto ironiza-se, pois projeta-se, para além do protagonista, em personagens de pendor neorrealista que acham um absurdo ele estar com essas preocupações idiossincráticas e filosóficas, quando o que é importante é que o homem tenha pão para comer, tenha orgulho próprio”.

 

AMOR E MORTE

 

Há romance e morte.

 

Antes do amor, “Aparição” apresenta uma aguda perceção do protagonista masculino acerca de sua transitoriedade.

 

Explica Vendrell: “Há essa ideia da experimentação da morte, de confrontação, no sentido de descobrir um lado irascível para se sentir vivo. O que ele chama de ‘aparição’ é um ato filosófico, de dissociação entre ele a realidade que o cerca, entre ele e a sua vida”.

 

E então há a paixão, particularmente personificado por Victória Guerra a fazer de Sofia, uma de três irmãs que, de certa forma, vão interferir na vida do professor.

 

“A Sofia é uma força brutal do livro. Ela dá uma mancha muito forte na vida dele através da sua imprevisibilidade, da sua incapacidade de controlo. Ela representa paixão, carnalidade, espírito vivo”, detalha o realizador.

 

Certamente cabe aqui também à atriz, um dos jovens talentos da produção audiovisual portuguesa, dar vida de forma intensa à essa personagem explosiva.

 

“A Victoria Guerra foi uma ‘aparição’”, brinca o realizador. E acrescenta: “Foi uma sorte ter conseguido conciliar a agenda para fazer o filme, pois ela própria tem uma força pessoal enorme que certamente ajudou na caracterização da personagem”.

 

 

O GRAFITEIRO DE ÉVORA

 

Para a escolha de Évora numa fase muito inicial do projeto contou o fascínio da arquitetura local.

 

“Ela tem aquele exotismo, mas não é uma cidade mediterrânica típica, uma vez que apresenta também alguma monumentalidade ligado ao classicismo. Fui escolhendo os 'décors' em função de uma cidade imaginária, como se estivesse perdido num labirinto arquitetónico”, lembra Vendrell.

 

Se a arquitetura já lá estava, utilizá-la não foi assim tão simples, apesar de alguns “golpes de sorte”: o icónico café Arcádia, por exemplo, está muito modificado e a cena onde ele entra foi filmada em Montemor. Há o turismo endémico, automóveis, marcas no chão e… um grafiteiro – compondo um episódio desagradavelmente anedótico da produção.

 

“Tivemos apoio da Câmara para limpar as paredes, mas quando chegávamos para filmar no dia seguinte as superfícies estavam pintadas outra vez! Havia um grafiteiro obsessivo em Évora!” [risos], conclui.

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por Roni Nunes às 20:37

Nova geração da crítica portuguesa diz que "o cinema não morreu"

por Roni Nunes, Sexta-feira, 26.01.18

Artigo originalmente postado no Sapo.

 

Uma das plataformas “online” mais representativas da atual crítica portuguesa, À Pala de Walsh, acaba de lançar um livro – reunindo material de cinco anos de reflexões sobre a 7ª arte. Justamente, intitula-se “O Cinema não Morreu”.

 

A frase já foi muitas vezes proferidas por Jean-Luc Godard, ícone inspirador confesso do grupo; pode ter-se esvaído de significado real, mas não de evocar um caráter de “tragédia iminente”.

 

O livro é lançado pela Linha de Sombra, também sede da livraria que opera nas instalações da Cinemateca Portuguesa e onde a obra pode ser adquirida. No Porto, está à venda na livraria Flâneur.

 

Na entrevista, preferem esconder no anonimato as contribuições individuais: Carlos Natálio, Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa assinam coletivamente tudo que o fica dito a seguir…

 

Qual a razão para o livro se chamar "O Cinema não Morreu"?

  

Jean-Luc Godard, que é, de certo modo, uma figura totémica para qualquer crítico de cinema e, em particular, para muitos de nós ,“walshianos”, já declarou várias vezes a morte do cinema – na verdade em tantas ocasiões que a expressão já se transformou numa “blague” sem grande peso funerário.

 

Ainda assim, quisemos que a nossa primeira publicação em formato de livro celebrasse o cinema na sua vivacidade histórica, mas especialmente contemporânea, já que “O Cinema Não Morreu” é também o título do capítulo do livro dedicado à produção cinematográfica mundial dos últimos cinco anos.

 

Isto porque o cinema continua a ser a arte que nos emociona, que nos instiga a escrever, que nos transporta e nos eleva. Nessa medida, ele hoje está muitíssimo vivo – pelo menos em cada um de nós, os espectadores – e tanto maior quanto a disponibilidade de quem assiste e quer redescobri-lo na sua máxima vibração.

 

No entanto, o livro não se chama “O Cinema Vive” nem “Viva o Cinema”. Há um não no título, como que se prognosticasse uma qualquer doença. "O Cinema Não Morreu", mas pode estar em vias de... – há um “ainda” que se anuncia. Nesse caso, cada um de nós, que escreve sobre filmes e que os vê num regime ora compulsivo, ora compulsório, seremos os cantores alegres da sua morte. Quando o cinema morrer diremos “paz à sua alma”, mas enquanto isso não acontece, celebre-se a sua vida!

 

 

Queria que falassem um bocado sobre como surgiu "À Pala de Walsh", como é que decidiram fazer um "site" e o motivo para este nome.

 

No início do ano de 2012, o João Lameira, que tinha um blogue chamado “Na Paragem do 28”, entrou em contacto com o Carlos Natálio e com o Luís Mendonça com a ideia de criar um “site” de cinema que congregasse um pouco as iniciativas que cada um mantinha nos seus espaços individuais. Todos nós já escrevíamos sobre cinema com regularidade, mas cada um no seu canto, com o seu público.

 

O propósito inicial foi o de criar um “site” com produção de conteúdo que, ao mesmo tempo que ia beber algumas das características da comunicação social dita institucional, tentava aproveitar a liberdade existente no digital. Isto até porque à data existiam muito poucos “sites” de cinema em Portugal e os que existiam tinham esta obsessão pelo cinema “mainstream” norte-americano. Nós queríamos ser um pouco mais ambiciosos e trabalhar no legado de grandes mestres do pensamento crítico sobre cinema, como era o caso de Serge Daney, Manny Farber, Bénard da Costa, entre outros.

 

A equipa, à qual se juntou o nosso benjamim, o Ricardo Vieira Lisboa, começou a reunir-se para delinear o que seria esse “site”: que rubricas teria, com que frequência publicaríamos textos, quem faria o quê, como organizaríamos a edição, o seu estilo formal, o que é que queríamos fazer e o que é que não queríamos que acontecesse. Discutimos muito, tínhamos planos megalómanos, pensávamos muito em poder viver um dia disto, da crítica. Hoje ainda pensamos nisso, mas menos…

 

Então chegamos finalmente ao nome do espaço. Depois de muitas hipóteses absurdas ficámos com “À pala de Walsh”, que é um trocadilho entre a expressão "à pala", como algo que é feito sem receber dinheiro, gratuitamente – como é o caso deste projeto –, e a pala que tapava um dos olhos cegos de um dos cineastas que todos gostávamos muito, o norte-americano Raoul Walsh.

 

Interessa ainda salientar que, ao longo destes quase cinco anos, o projeto se metamorfoseou um pouco desde a sua ideia original. O que foi pensado por ser algo com uma equipa mais ou menos fechada com rubricas muito estanques, que pudesse ser facilmente designada como uma redação digital de um órgão de comunicação social exclusivamente dedicado ao cinema, foi sendo transformado numa grande comunidade cinéfila digital.

 

Essa coletividade congrega hoje muitas vozes, formações, registos de escrita e pensamento que se unem em torno deste desejo de não deixar que as imagens que passam pelos nossos olhos, de lá saem sem um “feedback” qualquer, um retorno reflexivo. Hoje o "À pala de Walsh" é um pouco isso: um grande filme sobre cinema, a muitas mãos e, sobretudo, a muitos olhares.

 

 

Qual a expectativa em relação ao livro?

 

A primeira expectativa passa por fazer chegar a voz - ou o olhar - de uma nova geração de críticos ao maior número possível de leitores. Com isso, queremos que a crítica “online” possa ganhar uma outra dignidade. Quando dizemos "leitores" também falamos de colaboradores e mesmo de nós, cofundadores e coeditores.

 

Podemos dizer que este livro ajudou-nos a ter uma noção mais clara do trabalho que temos desenvolvido nos últimos cinco anos. Perspetivamos, por isso, um livro que permita dar a ler de outro modo o “site” aos leitores, editores e colaboradores por igual. Portanto, esperamos que “O Cinema Não Morreu” torne o "À pala de Walsh" ainda melhor, mais exigente, consigo e com os filmes.

 

A outra expectativa passa pelo estímulo à reflexão sobre a importância da crítica e, é bom frisar, da crítica livre, implicada e criadora. A maioria de nós trabalha nesse espaço intermédio entre a investigação e a criação artística. É fundamental entender o exercício crítico como ato de criação e vice-versa.

 

Ocorre-nos, nesse sentido, o caso de Godard, que nunca distinguiu o seu período de crítico do seu período de realizador. Ele chegou mesmo a considerar uma entrevista que fez a [Michelangelo] Antonioni, na sequência de “O Deserto Vermelho” [1964], como um filme entre filmes. Isto numa altura em que Godard já era um notabilíssimo realizador e havia aparentemente abandonado o ofício da crítica – o ofício talvez, mas a função crítica nunca abandonou de facto. Também para ele as imagens são - e parafraseamos – “complementos de ideias”.

 

Neste livro de uma imagem apenas - a fotografia magnífica da autoria da nossa fotógrafa, a Mariana Castro, que serve de separador dentro do livro – procuramos que as ideias se tornem eloquentes "complementos das imagens" para o leitor.

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por Roni Nunes às 22:06

Uma entrevista com a curadoria de Roterdão: o “arthouse” vai bem e recomenda-se

por Roni Nunes, Quinta-feira, 25.01.18

Artigo postado originalmente em C7nema.

Por Roni Nunes.

 

Gerwin Tamsma

 

A “morte” do cinema, o equilíbrio entre a forma e o conteúdo, os novos rumos, a produção lusitana: o C7nema teve uma troca de ideias elucidativa com um dos programadores de um dos mais influentes festivais europeus, o de Roterdão, que decorre entre 24 de janeiro e 4 de fevereiro. Gerwin Tamsma é um dos curadores da secção Bright Future, focada essencialmente em novos realizadores.

 

Com o incrível número de mais de 300 mil expectadores no ano passado (três vezes mais que TODOS os certames portugueses juntos), parece que não é mera retórica do programador dizer que há um público de facto preparado para as propostas difíceis de um festival fortemente vocacionado para o cinema de autor.

 

Tamsma ainda brincou as recorrentes ideias da morte do cinema (particularmente o de “arte”) e as queixas de repetitividade. “Mesmo que seja difícil ser melhor que Orson Welles ou Antonioni, tem que se continuar a tentar, essa é a nossa vida! Claro que não é fácil encontra-los…

 

O Festival de Roterdão é marcado por uma programação que apresenta obras com propostas diversas às narrativas tradicionais. Isso pressupõe que exista um público capaz de assimilar estas diferentes proposições…

 

Devido à maravilhosa e longa tradição do Festival de Roterdão, nós agora temos uma audiência que se dispõe a cada ano para abrir a mente e fazer a aposta – para ver o que temos sem rejeitar aquilo que não conseguem imediatamente reconhecer. Neste sentido, há uma audiência que abraça o novo tenta compreender o que os cineastas estão a tentar fazer. Claro que existe um público que prefere aquilo que conhece, mas por todo lado é possível encontrar pessoas à procura de algo diferente – mesmo que exija constantes esforços da sua parte. Também a educação é importante para buscar novos espectadores.

 

The Widowed Witch

 

Em termos de critérios para a seleção, por exemplo, como você equilibra a questão da forma com o conteúdo? É errado dizer que na secção Bright Future há uma grande preocupação com a forma?

 

Eu não faço necessariamente a distinção entre forma e conteúdo. Dito isso, eu penso que o programa da seção Bright Future apresenta uma gama variada de inovações e novas formas de se fazer filmes. Alguns realizadores estão, de facto, muito preocupados com a forma, mas também temos outras narrativas relativamente mais tradicionais. O festival também inclui a secção Voices, mais focado no conteúdo dos filmes. 

 

Existe uma certa tendência no meio cinematográfico hoje em dia em achar que o cinema está um tanto repetitivo. A trabalhar com jovens realizadores, é fácil encontrar projetos que contrariam essa noção?

 

Se você olhar para a seleção final você verá que o cinema continua em desenvolvimento e encontrando novas formas de expressão – mesmo que às vezes isso seja expresso apenas numa cena ou num gesto. O cinema continua se movendo por novos espaços e, claro, o mundo está em constante mudança e exigindo, frequentemente, novas leituras. Mesmo que seja difícil ser melhor que Orson Welles ou Antonioni, tem que se continuar a tentar, essa é a nossa vida! Claro que não é fácil encontra-los…

 

Outra tendência de pensamento vem anunciando há vários anos “a morte do cinema de arte”. No entanto, isso não acontece – todos os anos dezenas de projetos que podem ser qualificados como “arthouse” são produzidos…

 

Eu penso que essa ideia de “morte do cinema” vem de uma certa crença no que o cinema era – tal como tão elegantemente expressada por Susan Sontag. Dentro do contexto de alguns festivais, o cinema certamente não está morto. Para citar Frank Zappa, “pode ter um cheiro estranho, mas não está morto” (risos).

 

O Termómetro de Galileu

 

Quando alguém como Peter Greenaway menciona a morte do cinema, ele nunca quis dizer que os filmes deixarão de ser produzidos. É possível que os mais profundos, mais belos filmes ainda precisem ser feitos mas nós nunca mais viveremos um tempo onde o cinema tinha tanto poder, onde funcionava como uma janela para o mundo. Isso, simplesmente, porque há demasiada competição hoje em dia. Para mim, ‘dizer que o cinema está em toda a parte’ significa o mesmo que o ‘cinema está morto’.

 

O cinema português tem boa presença na seção e no festival, de modo geral.

 

Sim, estou contente com estes filmes, que demonstram que em Portugal, independente de circunstancias políticas e financeiras adversas, continue a produzir “arthouse” de qualidade. Portugal faz um dos melhores cinemas da Europa. Este ano teremos algumas produções da Terratreme, por exemplo. Mas para o ano poderão ser outras empresas…

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por Roni Nunes às 00:49

Conhecendo a Mostra de Tiradentes – festival pioneiro do cinema de autor no Brasil

por Roni Nunes, Sexta-feira, 19.01.18

Artigo originalmente postado no C7nema.

 

 

Todos os anos no mês de janeiro no estado de Minas Gerais, Brasil, a pequena cidade de Tiradentes, localizada a quase mil metros acima do nível de mar e com uma população em torno de 7 mil habitantes, é invadida por um enorme evento cinematográfico. Em 2018 a Mostra de Tiradentes chega a sua 21ª edição e, entre 19 e 27 de janeiro, vai exibir 30 longas-metragens e 72 curtas. Um dos pontos fortes são os debates: nada menos que 34 estão previstos – contando com a presença de um número considerável de convidados do meio cinematográfico.

 

Café e Canela, obra de Glenda Inácio e Ary Rosa, também selecionada para o Festival de Roterdão, que inicia a 24, fará as honras de abertura e encerra com as tonalidades surrealistas de A Moça do Calendário. O homenageado este ano é Babu Santana, conhecido do grande público por encarnar Tim Maia na sua “biopic”, mas com uma carreira assinalável no universo do cinema independente.

 


Café e Canela

 

Um dos temas deste ano é o Chamado Realista, que um dos curadores, Francis Vogner dos Santos, explicou em conversa com o C7nema como “um debate sobre o modo como  as demandas do real e o próprio material da realidade integra os mais diferentes filmes de maneira insinuante”.

 

A Mostra vai para a sua 21ª edição e conta com uma extensão em São Paulo. Desde o seu início até hoje a estrutura e o alcance do festival mudou muito?

 

O que mudou na verdade foi o cinema brasileiro. A mostra Autora é exemplar nesse aspeto: de Estrada para Ythaca, dos irmãos Pretti e dos primos Parente, passando por A Cidade é uma só, de Adirley Queirós, e chegando à Baronesa, de Juliana Antunes, muito coisa aconteceu nos modos de produção, muitas carreiras ganharam corpo e o interesse estético e inflexões políticas dos realizadores mudaram.

 

O festival, grosso modo, continua se baseando na dinâmica exibição-debate e, a cada ano, é uma temática ajuda a dar uma orientação para os debates e proporciona um recorte para se compreender algumas questões em jogo nos filmes de cada edição. O festival está atento para o que vem sendo feito. Isso não mudou desde que o Cléber Eduardo assumiu a curadoria em 2007.

 

Como vê a representatividade do festival no panorama do cinema brasileiro?

 

Ele tem o seu lugar na proposição do debate dos filmes e sobre os filmes, é também importante no lançamento de muitos realizadores em início de carreira e faz um esforço particular no sentido de esboçar um desenho da produção brasileira contemporânea. Existem hoje outros festivais muito importantes – também de orientações de curadorias diversas, Tiradentes é mais um deles e considero pioneiro na atenção e defesa da produção independente da última década.

 

O cinema de autor é um dos vossos focos notórios. Como vocês pensam o festival sobre esta perspetiva? Também há cinema de género?

 

Sim, existe uma perspetiva de defender um cinema com filmes que busquem uma assinatura particular, mas que não necessariamente é a do "autor pessoal" , o realizador, que se notabiliza por um estilo distintivo.

 

Tiradentes foi um dos primeiros festivais a dar atenção aos coletivos, a um tipo de realizador muito próximo da figura do artista conceitual, do “performer” do universo das artes visuais ou aos cineastas iniciantes que ainda não possuem uma obra - logo não seriam necessariamente autores. Nos últimos anos o festival tem dado atenção aos filmes de gênero (horror, comédia, ficção científica), porque tem aparecido filmes muitos expressivos nessa área.

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por Roni Nunes às 01:22

Artistas para todos os gostos e feitios: arranca hoje (18/01) o 15º KINO

por Roni Nunes, Quinta-feira, 18.01.18

Artigo originalmente postado em C7nema.

 

Publicado por  Roni Nunes

 

O mundo das artes nas suas diversas vertentes marca a 15ª edição da Mostra de Cinema de Expressão Alemã (KINO), que decorre em Lisboa, no cinema São Jorge e no Goethe Institut, entre 18 e 24 de janeiro. No Porto tem extensão de 25 a 28 (Teatro Rivoli e Cinema Passos Manuel) e em Coimbra de 14 a 16 de Fevereiro no Teatro Gil Vicente. A Mostra, uma das mais antigas de Lisboa, trás uma rara oportunidade para ver em sala projetos vindos de países como Alemanha, Áustria, Suíça e Luxemburgo.

 

Em conversa com o C7nema, a programadora Corinna Lawrenz falou sobre alguns dos filmes e temas da nova edição.

 

O filme de abertura é Wilde Mouse, obra estreada em competição na última edição do Festival de Berlim que é uma comédia negra sobre a burguesia – mais precisamente através da história de um crítico de música que perde o emprego e deseja vingar-se.

 

Também sobre artistas e vindo da Berlinale é Casting, trabalho que narra as desventuras de uma realizadora para escolher a atriz principal para um “remake” televisivo de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant – clássico de Fassbinder. Segundo Corinna, “é um filme que, por um lado, reflete muitas das temáticas dos filmes de Fassbinder, como as relações de poder e da dependência que estão presentes no original. Por outro lado, este filme tem muito a ver com a atualidade no sentido em que aborda a forma como os atores relacionam as suas atuações com a sua vida pessoal”, diz.

 

 

Wild Mouse

 

O maravilhoso mundo da Berlim Ocidental

 

Com uma forte componente documental, é Berlim e a vastidão da sua cultura “underground” um dos fios condutores da KINO 2018. Um dos mais estimulantes é B-Movie: Lust and Sound in West-Berlin, onde aproveitam-se as filmagens do inglês Mark Reeder para mergulhar na parte ocidental da capital nos anos 80. Pelo caminho tropeça em Nick Cave, Blixa Bargeld, Keith Haring e até Christiane F. entre muitos outros artistas que tornavam a cena anos 80 pós-punk/industrial/eletrónica particularmente visceral.

 

Se Penso na Alemanha à Noite é mais meditativo: Romuald Karmakar fez um filme silencioso sobre música eletrónica, mais preocupado com o processo de criação e as componentes do universo dos músicos.

 

As “catacumbas” da cidade também aparecem sob uma perspetiva histórica em My Wonderful West Berlin, onde narra-se a trajetória da comunidade “queer” começando nos anos 60. A partir desta altura, Berlim oferece um raro refúgio a homens vindos de todas as partes do país numa altura em que as “práticas homossexuais” eram punidas por lei – cujas determinações só foram oficialmente abolidas em 1994.

 

My Wonderful West Berlin

 

A planar pela Alemanha afora e daí para além das fronteiras Joseph Beuys apresenta performances intrigantes, desafia as audiências e entra em enormes controvérsias políticas. A história de duas décadas dos seus trabalhos preenchem de forma algo anárquica e sem um fio condutor preciso o trabalho do cineasta Andres Veiel, fazendo jus ao “biografado”– em obra com previsão de estreia comercial em Portugal no final de janeiro.

 

Ainda do tempo em que o brilho dos artistas de vanguarda não os tinha levado tão longe, Egon Schiele faz parte da geração do início do século XX ao lado de nomes como Gustav Klimt. Egon Schiele – a Morte e a Rapariga (o título refere-se a um quadro famoso do pintor) é uma biografia mais tradicional sobre a vida do artista e a sua relação com uma das suas musas.

 

A luta pela emancipação das mulheres numa pequena aldeia suíça dos anos 70 em A Ordem Divina, obra que também terá estreia comercial por cá. O título refere-se à suposta “eternidade” da sociedade patriarcal – que, só nesta época, começa a ruir. A programadora observa que um dos pontos fortes do filme é retratar não apenas o machismo ou as alterações legais do estatuto da mulher, mas captar a ideia que forma esta sociedade e leva com que todos aceitem os seus preceitos como uma “ordem divina”.

 

 Dezassete

 

Novas perspetivas

 

A programadora da KINO destaca ainda dois projetos de jovens realizadores – justamente incluídos numa seção que pretende dar relevo a primeiras e segundas obras. É o caso de Herbert, projeto estreado no Festival de Toronto que trata da vida de um pugilista e cobrador de dívidas que subitamente vê seu mundo ruir devido à uma doença que lhe afeta os movimentos. “É um filme de estreia de um realizador de grande talento, o qual recomendo vivamente”, assinala.

 

A austríaca Monja Art mergulha no universo adolescente e lésbico emDezassete. Corinna explica: “O filme não tem propriamente uma historia, o ambiente e o dia a dia deles é que é muito bem conseguido. Todas as atrizes do filme, que são muito jovens, conseguem criar um ambiente de seriedade, numa idade onde tudo tem muita importância, por outro lado tem a leveza de um verão adolescente, a ligação entre as duas coisas é muito bonita…

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por Roni Nunes às 19:51

Cinema argentino na Mostra Ibero-americana: imagens de uma terra distante

por Roni Nunes, Sexta-feira, 15.12.17

Postado originalmente no Sapo.

 

RONI NUNES

 

A Argentina é um país longínquo; mais distante ainda parece o seu cinema – perdido na imensidão da monocultura reinante.

 

Não é que um certo “mainstream” não tenha sido atingido por obras com “Relatos Selvagens”, “O Clã” ou “O Segredo dos Seus Olhos”, este último vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009. E, certamente, quem acompanha os grandes festivais internacionais já não consegue encontrar programações sem pelo menos um título vindo do país.

 

Em Lisboa, a Mostra Ibero-americana encerra este sábado. Sempre aberto a novos horizontes, o SAPO Mag conversou com o académico Jorge La Ferla, presente no evento, sobre novíssimos projetos do país apresentados na programação.

 

Como causa para a maior presença em festivais, ele aponta para “uma nova geração saída das universidades – muito distante dos autodidatas de antigamente. Até porque, com a destruição da indústria patrocinada pelos longos anos de ditadura militar, quando o projeto era transformar a Argentina numa economia medieval, pré-industrial, o cinema tornou-se uma das suas vítimas. Seria impossível aprender dentro do ofício”.

 

 

"Cinco noches, cinco películas"

 

Para Jorge La Ferla um dos mais interessantes aspetos das obras selecionadas para a Mostra é a diversidade da sua origem. Esta não traz apenas projetos “portenhos” [de Buenos Aires], dos cinco filmes três são de regiões do interior. Duas vêm do Norte, com os seus rios e paisagens verdes; outra traz o branco da Patagónia.

 

“São todas obras independentes, de autor, com a busca de algo diferente. Não é ‘standard’, comercial”, assinala.

 

O claro e o escuro

 

Começando pelo mundo urbano: o contraste não podia ser mais nítido entre “La Noche”, de Edgardo Castro, e “La Luz Incidente”, de Ariel Rotter.

 

“'La Noche’ é um filme de exteriores, com câmara na mão, sem iluminação, com uma estética mais documental. Também é contemporâneo, atual, apresenta Buenos Aires na vida noturna, com os seus espetáculos, restaurantes e buscas sexuais”, explica o crítico.

 

 

Por seu lado, “La Luz Incidente” “é uma obra de interiores, onde mostra a classe alta, retomando uma via do cinema argentino dos anos 60, muito inspirado no neorrealismo italiano. É um filme que dialoga com [Michelangelo] Antonioni, especialmente com “As Amigas” [1955] – abordando a classe média-alta, gente que não trabalha, com boas roupas e crises pessoais. É um exercício de estilo, com um cuidado importante para a arte da decoração, o enquadramento, os tempos”.

  

 

O verde e o som dos rios

 

Já o escritor Juan José Saer, que viveu os seus últimos anos em França, inspirou duas histórias de cunho muito diferente. Ele colocou-as fora de Buenos Aires, na província de Santa Fé, muito perto do rio Paraná, na fronteira com Brasil. Daí saíram dois filmes, “El Limonero Real” e “Tublanc”.

 

“São paisagens que não têm nada a ver com Buenos Aires, marcadas pela presença do rio, pelo verde circundante. Não é trópico e, ao mesmo tempo, tem uma forma particular de viver, de falar”, observa o académico.

 

No caso de “El Limonero Real”, trata-se da história íntima de uma família que vive frente ao rio, muito marcada pela natureza.“É um filme muito experimental, não é uma adaptação literal, é mais poética e com muitas elipses. O enredo situa-se na noite de encontro de Ano Novo, ao qual uma das pessoas da família não quer ir porque há um luto de um filho que morreu há muitos anos. É muito bem filmado e um trabalho de som incrível”, destaca.

 

 

Por seu lado “Toublanc”, de Iván Fund, é uma espécie de “thriller”, onde “conta muito o que não é dito, o que não é mostrado, é um filme de pura sugestão. Não é para as pipocas, é preciso estar muito atento para se perceber".

 

 

O “western” branco

 

O trabalho da paisagem tem outro grande momento com “El Invierno”, projeto de estreia de Emiliano Torres”. A ação decorre na Patagónia, onde a neve, a montanha, o branco, cobrem toda uma história familiar, com elementos de “thriller” e, até, "western". “Existe esta luta do homem contra natureza, que até podia entrar num filme de John Ford”, avança  Jorge La Ferla. Ao mesmo tempo, “este realizador tem um olho para construir as cenas como se fossem quadros, com o seu uso das cores – e com muito boas atuações”, complementa.

 

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por Roni Nunes às 20:13

A história de um filme que (infelizmente) termina depressa demais

por Roni Nunes, Quinta-feira, 14.12.17
 
“Verão Saturno”, de Mónica Lima, tem apenas 30 minutos, mas foi um dos bons acontecimentos da Mostra de Cinema Ibero-americano.
 
 

Revelado na programação do Curtas de Vila do Conde, "Verão Saturno", de Mónica Lima, tem apenas 30 minutos.

 

Quem não o conseguiu ver durante a Mostra de Cinema Ibero-americano, que decorre no cinema São Jorge, em Lisboa, até dia 16, terá nova hipótese: há uma sessão na Cinemateca Portuguesa, dia 21. Aí será exibido com mais três obras na programação "O Dia mais Curto".

 

Esta obra de ritmo fluído e sem as presunções frequentes de um certo cinema de nicho lusitano tem apenas um defeito: quando o espectador, envolvido pelas múltiplas linhas abertas pelo argumento, ainda está imaginar os desenlaces possíveis, ele é subitamente lembrado que se trata de uma curta-metragem.

 

O SAPO Mag conversou com a realizadora no cinema São Jorge, que disse estar a trabalhar numa longa-metragem. De resto, entrevista e filme tratam de um tema pertinente, na qual Mónica Lima revê-se, sobre a situação daqueles que não deixam de perseguir os seus sonhos.

 

Promessas não cumpridas

 

O enredo de "Verão Saturno" conta a história de Samuel (Jaime Freitas). Ele vive na Alemanha com a namorada (Joana de Verona) e vem a Lisboa para um concerto. Fica na casa da mãe dela (Rita Loureiro). Há uma tensão sexual e aquilo que é o foco do filme: o duro de processo de continuar a sonhar com a arte contra todos as questões de ordem prática.

 

"O filme aborda sobretudo a crise dos eternos jovens, entre os 30 e 35 anos, de pessoas que têm desejos que não conseguem cumprir, promessas eternas por viver”, observa a realizadora. “E, quando se é artista, mais complicado é. O protagonista que vive nesta ambivalência”.

 

Quanto a este, ele é um músico independente [as canções originais são do guitarrista Filipe Felizardo], a sua namorada é estudante e já mudou de curso várias vezes. Não se trata de exigência a mais desta geração?

 

“O problema é que nos foi prometido muito mais que isso", recorda. "Disseram que se estudássemos tudo ia correr bem, que íamos atingir o máximo do potencial e acreditámos nisto. Portanto é mais do que válido continuar a alimentar essa expectativa. Depois descobrimos que não é assim, não há de facto uma repercussão pragmática que nos permita pagar as contas.”

 

 

Os artistas perdidos na sociedade contemporânea

 

Hoje, com o turbilhão de meios e vozes, como um novato pode ser reconhecido?

 

“Todo o criador acredita que o que faz é bom e que vai fazer a diferença. Esse é a loucura e é impossível dizer-lhe que é melhor não fazer arte porque não vai conseguir sustentar-se. Essa mensagem nunca vai ter significado. Eu sou romântica a esse nível, acho que a vontade de produzir vai ser sempre maior”, defende.

 

No entanto, Mónica Lima também reconhece: “Os artistas não vão deixar de existir, mas eles também são uma figura que anda meio perdida na sociedade contemporânea. Gosto desta personagem porque deambula por este mundo sem encontrar realmente um equilibro entre sonhos e expectativas e estas necessidades pragmáticas de sustento”.

 

O novo projeto da realizadora tem o título provisório de “O Último Dia de Todos os Dias” e já teve o argumento premiado pelo ICA. A escrita vai decorrer durante 2018.

 

Sobre aquela que possivelmente será a sua primeira longa-metragem, relata: “É uma comédia negra sobre fantasmas, famílias e uma casa à espera de uma mulher que, depois de vários anos ausente do país, é suposto regressar. Mas ela nunca mais aparece. O filme acontece no tempo de espera desta personagem, com alguns elementos de uma comédia de costumes”.

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por Roni Nunes às 23:37


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...