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Entrevista: André Valentim Almeida, realizador de "Dia 32"

por Roni Nunes, Domingo, 14.05.17

Entrevista originalmente postada em SAPO MAG (http://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/indielisboa-portugal-futebol-e-o-apocalipse?artigo-completo=sim)

 

IndieLisboa: Portugal, futebol e o apocalipse

POR RONI NUNES

 

André Valentim Almeida esteve na Competição Nacional do IndieLisboa com "Dia 32". Do retorno a casa com uma arca de imagens do fim do mundo ao projeto da “Liga dos Últimos” em França, o SAPO Mag foi descobrir o que acontece depois que tudo termina…

 

 

André Valentim Almeida faz filmes sozinho, muito pessoais, onde os seus princípios filosóficos convivem com as imagens de uma câmara portátil.

 

Dois dos principais festivais de cinema portugueses gostam deles: “From New York with Love” foi parar ao Indie e “A Campanha do Creoula“ ao DocLisboa, onde recebeu o prémio da Doc Alliance. E agora, “Dia 32” retorna ao Indie.

 

Deste cinema muito particular e, especialmente, em relação ao seu último trabalho, o SAPO Mag foi saber do realizador o que ele guardou na sua “arca de imagens” antes do fim do mundo – o principal artifício que conecta as idas e vindas dentro do filme.

 

 

Ao mesmo tempo, André saboreia um retorno à casa que redefine Portugal no seu imaginário depois de viver em Nova Iorque – com um enfoque muito diverso de “From New York with Love” e que deixa muito bem na fotografia (literalmente) a sua terra natal.

 

Depois do fim do mundo e da Lusitânia, a próxima paragem é a França, onde começa em setembro as filmagens de “Os Futebolistas Invisíveis”. Aí promete, mais uma vez, um olhar muito original sobre a vida dos portugueses no país – tomando por base os 200 (!) clubes de futebol de origem lusa no território francófono.

 

No filme, você promove uma espécie de “livre associação” onde o que parece ligar os eventos é uma ideia de fim, de apocalipse.

 

Sim, sempre tive essa ideia de fim. Não sei se em mim essa preocupação é mais forte do que nas outras pessoas, mas é um pensamento recorrente. E daí vem a questão do apocalipse. Mas quando comecei a investigar percebi que não podia pensar no assunto de uma forma tão redutora – afinal… que fim é esse? O da Terra? Da espécie? O meu? O que vem a seguir? Então comecei a procurar uma espécie de rumo para este ponto de partida. Claro que sempre tive em mente a questão das alterações climáticas, é algo que me marca profundamente. Nós em Portugal não temos muito essas noções – até porque não temos quaisquer eventos meteorológicos relevantes.

 

E interliga a tragédia coletiva com a sua trajetória individual…

 

Sim, depois existe o “eu” no meio disto tudo. O nosso fim pessoal também é apocalíptico. De qualquer forma, um amigo fez uma análise sobre mais de uma centena de filmes sobre o assunto e, com exceção de três ou quatro, em todos os outros aparece uma solução no final. Fica sempre um pequeno núcleo ao qual nós também pertencemos, pois achamos que somos espetaculares [risos]. Portanto, há de forma permanente um desejo de reinício. Nós queremos um fim para varrer o que não interessa, para reconstruir tudo de outra forma.

 

Aliás, esta ideia anda de volta na política, com Donald Trump, Marina Le Pen… Há essa fantasia genocida, de eliminar “o que não presta”…

 

Exatamente! Não é por acaso que utilizei as imagens da bomba atómica com a bandeira dos Estados Unidos. Queira conectar o filme com esse momento profundamente assustador em que vivemos – com o retorno destes conceitos de eugenia [possibilidade de melhoramento da espécie humana], raça superior e nacionalismos bárbaros. “Dia 32” tem isso incluído: ao fazê-lo, fui contaminado pelas ramificações do que está a acontecer.

 

Mesmo assim as imagens de nascimento e as belezas naturais contrapõem um tom sombrio…

 

O nome “32” revela essa profunda circularidade na vida, tudo é renovável e volta à origem. Apesar de achar que vivemos um período terrível, onde Le Pen poderia ter ganho e iniciado uma governação destinada ao caos, há sempre uma centelha de esperança, é cíclico. O filme tenta fazer isso, mostrar ciclos que se repetem.

 

Acaba por ser otimista…

 

Sim, por um lado presume a extinção da espécie, mas também há uma arca porque se sabe que haverá novas possibilidades no futuro. É como dizer ‘atenção, vejam isso, não cometam os mesmos erros que nós cometemos’. Digo isso, mas sabemos que se houver continuidade, eles vão fazer tudo novamente errado [risos].

 


Não foi fácil selecionar as imagens da sua “arca de imagens” para os habitantes do futuro…

 

É um trabalho impossível, aliás, cada vez mais – e pressupôs um trabalho enorme de pesquisa no YouTube. Neste sentido, o filme também procurar ser uma crítica desta profusão de imagens, da substituição das pessoas por elas. Estamos obcecados pela comunicação imagética. O excesso de imagens é a sua ausência, uma vez que não temos capacidade para discerni-las…

 

 

 

Mas no final faz uma espécie de escrutínio destas imagens…

 

É uma sequência com muitas leituras possíveis, estamos a regressar à origem do cinema. Este começa com tomadas com cenas curtas de pequenos factos da vida, e em 2017, estamos a fazer novamente isso. A diferença é que todos podem fazer e mostrar. Hoje é difícil sensibilizarmos com a imagem, temos uma sociedade muito superficial, a tecnologia tem esse lado perverso de banalizar.

 

Outro aspeto notório é a mudança de enfoque em relação à sua visão de Portugal, que era bem mais crítica em “From New York with Love”.

Há sempre uma evolução, claro. Gosto de mostrar o que estou em sentir no momento e tanta coisa mudou durante o processo de produção que, em alguns momentos, não tinha certeza sobre o que mostrar. Mas, de facto, quando fui para Nova Iorque, tudo era extraordinário, colorido, a arte estava em todo o lado.

 

À medida que o tempo passa começo a sentir aquela nostalgia de Portugal cada vez mais forte. Nova Iorque é uma cidade muito politicamente correta. Dou um exemplo: ainda hoje fui almoçar num restaurante que é inspirado nos Estados Unidos e uma empregada de mesa diz-me que ‘a minha razão é servi-lo bem’. Isso não é português, afinal não há nenhuma ‘razão em servir-me’ para aquela pessoa que está ali a não ser o facto de precisar do trabalho. Na América há um sentido de farsa, uma simpatia e um sorriso permanentes. É tudo demasiado forçado, para um português é bastante cansativo. Falta uma certa naturalidade naquele país. Nós somos extirpados de uma certa humanidade para sermos “felizes”.

 

Nós aqui queremos queixar-nos da vida, faz parte. Nós encontramos a nossa felicidade neste estado depressivo [risos]. Em Nova Iorque não se pode fazer isso – quem faz é uma pessoa sombria, estranha, rude. Claro que, por outro lado, com a atitude que têm, eles fazem as coisas acontecerem.

 

Já tem um novo projeto?

 

Sim, já há financiamento para fazer um filme sobre a comunidade portuguesa em França. Será um documentário que visa um olhar sobre as comunidades. Vai chamar-se “Os Futebolistas Invisíveis” e, à partida, começo a filmar em setembro. O enfoque parte de um facto que pouca gente sabe – existem mais de 200 clubes de futebol em França com origem portuguesa. Achei que seria um bom ponto de partida para falar dos emigrantes.

 

Parece a “Liga dos Últimos”…

Exato, mas é ainda pior! [risos]. Ainda não fui lá, mas vês as imagens e pensas… que Portugal é este que está aqui? [risos].

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Roni Nunes às 16:29


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...



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