Enquanto o inverno toma forma em Portugal, o circuito comercial de cinema recebe o verão interminável da juventude na proposta de estreia de Pedro Cabeleira: "Verão Danado" tem agradado um pouco por todo lado, no Festival de Locarno aos que já o viram por cá em antestreia. A ver se espalha as suas andorinhas à base de MD pela noite polar da distribuição/exibição em terras lusas.

 

Chico (Pedro Marujo, também em estreia) sai da terrinha para estudar em Lisboa. Na sua última vinda a capital conhece o universo dos “ravers”. Anda de festa em festa. Mais ou menos deslumbrado, de vez em quando ressacado – por vezes despreparado para a dinâmica volátil da noite. E é isso.

 

Diz o cineasta, não totalmente a sério: “Gosto da noção da odisseia, do sujeito que sai da terra para uma grande aventura. Os “MDs” são como as sereias a acenar para ele...!”

 

Pedro Cabeleira escolheu músicas do DJ Nigga Fox e ritmos “afrobeat” para embalar os seus jovens – até garantir um brilhante momento-surpresa com o DJ Mr. Gee. Uma poesia do século XXI não poderia vir de um poeta.

 

Foi uma descoberta fortuita na pós-produção”, diz. “De repente percebi que aquele poema tinha tudo a ver com filme e fiquei arrepiado”.

 

 

De personagens ilustres há Nuno Melo, numa pequena participação gravada quatro meses antes do ator falecer.

 

Ele havia entrado no meu filme de conclusão da universidade. Mais uma vez disse que não tinha dinheiro para pagar, mas ele aceitou na mesma. Era uma pessoa incrivelmente bem disposta”, assinala.

 

De resto, será um hino à geração do hedonismo-que-vazio-horrível-dentro-de-mim? Também isso. Mas há mais sereias nesta odisseia com os seus longos e violentos momentos de festa. “Se era para mostrar uma festa tinha que ser uma a sério”, diz o anfitrião.

 

O realismo orgânico e os blocos da criação

 

Se a graça da criação é reinventar sobre o que já existe, os caminhos de Pedro Cabeleira já andam por aí há tempos. Trata-se daquele realismo orgânico com personagens-que-podiam-ser-o-nosso-vizinho que tem em autores como Richard Linklater a sua via “mainstream” e na epidémica docuficção o seu reduto festivaleiro.

 

Em “Verão Danado”, a dinâmica entre composição visual, diálogos e interação entre personagens é complexa. O realizador explica: “A ideia era trabalhar por blocos, o ponto de partida foram quatro ou cinco blocos que tivessem intensidade dramática ou sensorial – de achar que momentos tinham impacto cinematográfico.”

 

Assim, “dois blocos relacionam-se com as duas festas, outro sobre a situação com a rapariga onde queria filmar rostos, um quarto com a ideia da terra natal, simbolizando um personagem que sai para a capital, e o jogo de futebol – para mostrar uma relação de amizade e euforia sem drogas. A composição dos personagens veio a seguir”.

 

A juventude e o verão “never ending”

 

O filme como um todo apresenta-se como uma metáfora própria do estado de juventude, com a sua ideia de presente eterno.

 

Diz Pedro Cabeleira: “A ideia é que aquilo pode parecer uma espécie de um verão interminável, 'never ending', de festa em festa. Isto porque, de repente, há ali uma rotura com uma ideia de rotina. O Chico sempre foi uma pessoa rotinada, teve os pais, depois a escola, foi para a universidade. De repente ele fica órfão porque as instituições desaparecem e se ele não arranjar um emprego, este estado pode-se prolongar ‘ad eternum’. É um período muito característico da vida das pessoas e senti que pode ser algo muito violento, um choque, um período de transição muito estranho”.

 

 

A liberdade do imediato

 

De qualquer forma não há em Verão Danado" uma crítica moralizante em torno destes jovens.

 

Não queria mostrar isso de uma forma destrutiva, há uma energia naquelas pessoas, naquele período da vida, uma liberdade que não se volta a ter. Eles não estão agarrados a nada material, ninguém tem dinheiro, eles não estão a planear viagens ou ir à praia. Só querem estar ali, o que é uma coisa bonita e específica daquele período. Claro que é muito romântico a ideia de viver assim para o resto da vida o que, dado a forma de organização do nosso sistema social, é completamente impossível”.

 

O eterno vazio da juventude pós-moderna

 

Esse tempo “infinito” expõe também a fragilidade das novas gerações.

 

Hoje em dia queremos demasiado. Os nossos avós e antes deles estavam concentrados em pôr comida na mesa. Os nossos pais já se preocupavam em ter uma casa própria, um carro, pôr os filhos na universidade. Já a nossa geração quer ser extraordinária, não conseguimos perceber o quão privilegiados somos por termos nascido nesse tempo. Desejar ser extraordinário pode-nos colocar numa insatisfação permanente”, avança Pedro Cabeleira.

 

Da mesma forma, o filme não é meramente sobre o uso de drogas – embora elas estejam fortemente conectadas com um dos seus temas centrais, o hedonismo.

 

As drogas aqui potenciavam uma série de possibilidades em termos de cenografia e realização. O MD, por exemplo, possibilita aquela sequência de 20 minutos onde posso brincar com o som. Já para os personagens é uma forma de refúgio de uma coisa qualquer, lidam constantemente com um vazio que tem que preencher. A droga garante satisfação imediata”.

 

 

O baile de máscaras e a desfragmentação da identidade

 

Num dado momento, Chico diz que se encontrasse aquelas pessoas fora do ambiente da festa não as reconheceria.

 

Pedro Cabeleira explica: “O que acontece nestas festas é uma abstração da questão da identidade: às vezes as pessoas adquirem outra 'persona', uma oportunidade de se mostrarem de maneira não o podem fazer durante o dia. É como um baile de máscaras moderno, encontrar aquelas pessoas de outra forma seria estranhíssimo”.

 

“Verão Danado” é o primeiro filme distribuído em sala pela plataforma Filmin e estreou esta semana.