O realizador Leonardo Di Constanzo investiga novamente fatores aparentemente secundários do crime organizado no seu país.A sua primeira longa-metragem, “L'intervallo”, que circulou em Portugal no circuito dos festivais em 2012, falava de dois adolescentes que perambulavam por um local onde um deles era prisioneiro e aguardava a chegada de mandatários da máfia.

 

Em “L’Intrusa” trata-se de uma mulher, Giovanna (Raffaella Giordano), que faz um trabalho com artes para as crianças no sentido de demovê-las do mundo do crime. A sua comunidade, no entanto, é abalada pela vinda da polícia, que prende um homicida que estava lá escondido. Um dos efeitos colaterais dos seus atos são a esposa, Maria (Valentina Vannino) e os filhos pequenos, deixados para trás em condições precárias. Mas os familiares do rapaz morto pelo criminoso não a querem lá e ela passa a ser a “intrusa” – um elemento desestabilizador.

 

A máfia é um espectro que plana sobre o quotidiano, nunca irrompendo de forma violenta, mas sempre condicionando a vida dos presentes e pondo-os em dilemas e encruzilhadas difíceis de resolver. A simplicidade eficaz da técnica de di Constanzo gera filmes pouco ruidosos, pouco espalhafatosos, mas agradáveis e sugestivos, na medida em que vão construindo a teia sobre os protagonistas - intercalando acontecimentos com momentos mortos e simbolismos simples, como a chuva que surge para "lavar" a presença da intrusa.

 

Todo o conflito joga-se neste limite - ético/moral, de solidariedade, de fidelidade aos princípios – uma vez que Giovanna criou um grupo disposto a acolher todas as crianças e romper o que chama de ciclo criminoso. Mas é a única a perceber a amarga luta pela sobrevivência física e psíquica da intrusa, que se defende de forma hostil – tanto mais importante porque ela recusa-se a ser acolhida no seio da família e da proteção mafiosa a que teria “direito”. Mais um belo trabalho de di Constanzo.