Se a sociedade francesa é um caldeirão efervescente, a realizadora estreante Sou Abadi resolveu juntar todas as peças e rir de toda a gente. Não o chega a fazer de forma temerária: a comédia "Há Quem as Prefira de Véu", que chega esta semana às salas de cinema portuguesas, termina por ser mais agridoce do que sarcástica. Mas há tiros suficientes para todos os lados.

 

Leila (vivida por Camélia Jordana, uma famosa cantora de música “pop” em França) é uma descendente de árabes liberal à moda ocidental. O namorado Armand (Félix Moati) é francês e são ambos universitários.

 

O conflito: a órfã Leila recebe a visita do irmão mais velho Mahmoud (William Lebghill), vindo de um campo fundamentalista do Iémen e devidamente convertido. Este está em modo patriarcal: agora é ele que manda. Namorado francês, nem pensar. Nem que, para isso, tenha que enclausurar a irmã em casa e Armand, para vê-la, tenha que lá chegar escondido numa burka e a fazer-se passar por mulher. Resulta até demasiado...

 

O título original (“Cherchez la Femme”) remete para uma velha fórmula dos policiais: se um investigador quer descobrir a origem de um crime, procure primeiro por uma mulher. Há sempre uma na raiz do problema. Já o título internacional inglês (“Some Like it Veiled”) faz menção a outro aspeto do filme – a relação com o clássico de Billy Wilder “Some Like it Hot” (em Portugal “Quanto mais Quente Melhor”) – com as suas confusões, reviravoltas e um homem disfarçado de mulher.

 

As personagens e seus desmazelos são devidamente exageradas: Mahmoud chega a perseguir a irmã com um machado, enquanto a mãe de Armand (Anna Alvaro), herdeira das moribundas ideologias revolucionárias, posa seminua para a “causa iraniana” (seja o que isso for). Assim, com traço grosso, dá para ironizar os absurdos do Islão e os caminhos inconsequentes de um ideal de esquerda moribundo.

 

Atualmente a França vive uma crise de identidade, com os seus milhões de descendentes vindos do mundo árabe, uma extrema-direita muito ativa e, pelo meio, uma classe média numa desorientação total de princípios. Sou Abadi juntou tudo isso em "Há Quem as Prefira de Véu" para chegar a algumas piadas hilariantes.