"Bostofrio – Où le Ciel Rejoint la Terre", filme de estreia do realizador Paulo Carneiro, tem sessões no IndieLisboa nos dias 28 de abril (Culturgest) e 4 de maio (cinema São Jorge).

 

O “Bostofrio” do título é o nome de uma pequena aldeia entre as montanhas no Nordeste de Portugal. Pertence ao concelho de Boticas e Paulo Carneiro, assistente de realização de dois filmes de João Viana, foi até lá. A ideia era procurar as suas origens paternas – ir ao encontro das memórias de um avô que não conheceu e não perfilhou os filhos. Mais do que isso, no entanto, embrenhou-se por outras ideias: um retrato, ainda que simbólico, das dicotomias do que é “ser português”…

 

Antes disto, no entanto, foi duro o périplo pelos segredos e tabus que ainda cercam o povo local, à partida muito reticente em mexer no passado.

 

“Quero lá saber do teu avô!”, diz a primeira entrevistada, dando ao início do filme uma forma anedótica. O realizador, no entanto, decidiu manter a conversa com a sua pouco interessada interlocutora. "Sim, ela tem essa maneira de falar, mas há um carinho ali, que se pode notar. E claro que ela sabe que está a ser filmada", recordou.

 

Essa introdução dá um retrato das reticências que cineasta terá de vencer para avançar no percurso. É algo que remete às origens: a vida na pequena localidade nunca foi fácil. "Se for preciso são os teus melhores amigos, ficam zangados se não fores à casa deles, se não comeres qualquer coisa lá. Mas há uma forma rude que vem de um ambiente muito hostil. É algo que dá para ver no filme, é uma população isolada, cercada de montanhas. Cerca de 30 pessoas vivem lá", explica.

 

 

Suspense orgânico

 

Pôr as pessoas à vontade era essencial para abordar segredos e tabus do passado. Foi como se conseguiu criar um suspense orgânico na medida em que a organização do material segue a ordem cronológica em cerca de 80%. Munido de mais conhecimentos revelados por um entrevistado, Paulo Carneiro conseguia aumentar o alcance da conversa a seguir. "O caminho para o final é completamente documental", salienta.

 

Muitos planos são fixos e registam de longe as conversas. É uma questão de pragmatismo de produção tanto quanto de desejo estético. "Sabia que não ia ter tempo para preparar as entrevistas", conta o cineasta, que teve um mês para ficar no local depois de ganhar uma Bolsa para Jovens Criadores do Estado. "Assim, aparecer no filme era também uma forma de ir fazendo o registo ao mesmo tempo que os ajudava a esquecer que estavam sendo filmados".

 

Já em termos estéticos, a ideia era "mostrar que, apesar dos planos serem fixos, havia movimento. Há uma tentativa de criar uma ‘mise-en-scène’ onde tem sempre algo em movimento". Os conceitos são da História Oral, tendência historiográfica que privilegia os depoimentos em primeira pessoa.

 

"Acredito piamente numa história para além da escrita e esta é uma ideia que continuará a ser explorada num dos meus próximos projetos. Aqui queria preservar as falas de Trás-os-Montes, que são belíssimas, com as suas expressões típicas, tenho uma relação de afetividade com este vocabulário. Também li muito Miguel Torga, que escreve bastante sobre a região”, recorda.

 

 

Em busca do “ser português”

 

Desde o início a ideia foi homenagear o pai, uma espécie de sobrevivente de uma época dura. Nascido na pequena aldeia, foi declarado como tendo "pai incógnito", criado pela mãe com problemas psíquicos e ajudada por uma tia num altura de miséria e superstição.

 

Com a faceta pessoal do projeto, no entanto, cruza-se um outro conceito – o das dicotomias ligadas à uma ideia de "ser português". A da existência de um Portugal antigo, com os seus tabus sexuais, a miséria económica e onde os problemas mentais eram vistos como uma espécie de "possessão demoníaca".

 

"Certamente há um paralelismo entre o céu e a terra, o místico e o terreno, Deus e o demónio, especialmente quando percebi que as pessoas ligavam o passado da minha avó a algo infernal. Assim, o resultado final deixou de ser apenas uma procura pessoal minha e tornou-se noutra coisa", concluiu.