Após o Festival de Cannes, o céu tornou-se o limite: "120 Batimentos por Minuto" alinha uma longa fileira de prémios (o Grande Prémio em Cannes é o seu momento maior), nomeações a outros (incluindo a indicação francesa para os Óscares de Melhor Filme em Língua Estrangeira) e consensos críticos por todo o lado.

 

Mas quem conversa com o seu artesão, Robin Campillo, dificilmente encontrará um homem deslumbrado pelo seu ego. Esbanjando simpatia, o cineasta recebeu o SAPO Mag no café do Cinema Ideal para uma conversa séria sobre um filme sério. Mas tal como a (muito) relativa leveza que apresenta no tratamento dos temas difíceis que escolhe (também lhe foi lançada essa questão), o serão acabou em risadas.

 

Campillo tem motivos para celebrar. Em relação à sua curta passagem por Lisboa, o cineasta garantiu que terá pelo menos um dia para conhecer a cidade. Vem dia após dia a apresentar o seu filme por diversos locais: daqui segue para a Ucrânia e, depois, para a Eslovénia. Nada mau para uma produção independente. “Não me posso queixar!”, diz.

 

O discreto aborrecimento da burguesia

 

"120 Batimentos por Minuto" narra o dia-a-dia de um grupo de ativistas no início dos anos 90. O objetivo da associação Act Up era alertar a sociedade para a terrível situação das pessoas atingidas pela epidemia da SIDA.

 

De resto, o filme mostra os bons tempos onde se incomodava o cidadão bem estabelecido com sangue falso (mas com excelente aparência de verdadeiro), com multidões atirando-se ao chão para barrar os carros dos indiferentes ou criando coreografias de protesto com o hino “pop” “Smalltown Boy”. Campillo ajuda e faz um protesto-homenagem aos seus mortos "tingindo" o Sena de vermelho.

 

Um longo trecho é abertamente proselitista: há uma associação ativista e uma ação correspondente – embora mais por desespero e com objetivos práticos do que buscas utópicas de revolução político-social.

 

Militância à anos 60? “Sim, adoro [Jean-Luc] Godard, mas percebi que o seu cinema era inepto para lidar com a epidemia, pois não vemos pessoas doentes nos seus filmes”. Já Bernardo Bertolucci estava mais atento ao entrelaçar entre o universo íntimo/privado e a política… com a palavra, Robin Campillo.

 

Como foi o seu envolvimento com a Act Up e de que forma isso contribuiu para o filme?

 

Juntei-me a Act Up em 1992, 12 anos depois do início da epidemia ou, pelo menos, da chegada dela aos "media" franceses. A partir dos meus 20 anos era apenas um jovem “gay” com muito medo do que lia nos jornais e fiquei sem sexo durante sete anos. Entrei para a Act Up porque decidi que tinha que fazer alguma coisa. Nós estávamos numa posição bizarra, havia amigos que desapareciam durante meses em hospitais, toda a gente estava apartada umas das outras.


Claro que toda a gente já tinha ouvido falar de homossexuais que morriam, prostitutas, viciados, mas não havia de facto comunicação entre as pessoas e estava com raiva disto tudo. Quando soube que o meu primeiro namorado tinha morrido juntei-me a Act Up alguns meses depois. Descobri um grupo que era extremamente divertido, havia tanto júbilo porque as pessoas estavam felizes por estarem juntas, podiam partilhar as suas experiências e tentar acordar a sociedade para o que estava a passar. Perguntava-me ‘Onde está a doença’? Porque o grupo era bastante saudável.

 

No filme até esquecemos muitas vezes que se tratavam de pessoas doentes…

 

Era mesmo assim! Claro que eram pessoas jovens e é natural que houvesse energia, mas quando as pessoas estão a morrer não é assim tão linear…

 

 

Na altura o tema da SIDA era muito marcante, mas hoje já não é tão falado. Por que decidiu abordar o assunto?

 

Fiz o filme em certa medida por motivos egoístas. Não pensei na situação da epidemia nos nossos dias. Quando estava a rodá-lo percebi que era importante fazer o filme agora pois escolhi estes jovens atores e a maioria deles eram ‘gays’ que não tinham relação com a epidemia de 25 anos atrás. Eles não faziam qualquer ideia do que tinha acontecido. Um deles, por exemplo, nunca tinha feito um teste de HIV! Para mim isso era incrível e disse ‘Tem de fazer’! Ao mesmo tempo, não queria fazer um filme histórico. Queria pôr o espectador como se ele estivesse no presente, como se tudo isso estivesse a acontecer agora.

 

O filme lembrou um pouco certos trabalhos dos anos 60, como alguns do Godard ou do Bertolucci. Tinha isso em mente quando fez o filme?

 

Sim, claro, certamente tinha isso em mente. Adoro Godard e também os primeiros filmes de Bertolucci. É muito interessante, era um grande fã de Godard no início dos anos 80. Mas com isso da epidemia percebi que o cinema dele não era apto a abordar esse assunto, precisamente porque não vemos pessoas doentes nos seus filmes. Aliás, em toda a "Nouvelle Vague" só temos pessoas saudáveis.

 

Neste caso estamos a falar de pessoas doentes, o que é muito diferente. A única obra desta época a retratar algo assim é o de Agnés Varda, “Cleo de 5 à 7” (“Duas Horas na Vida de uma Mulher”, de 1962). É engraçado porque aquilo que o filme mostra é exatamente o que eu estava a viver nos anos 80, o facto de existir algo enorme como uma guerra distante que vem se aproximando cada vez mais. O filme dela é belíssimo e é exatamente nisto que estava a pensar.

 

Queria acrescentar uma coisa sobre o maio de 68 em França. Na altura, as pessoas tinham certamente expectativas grandiosas, com os seus discursos de esquerda, maoístas, etc. Mas nas universidades francesas a luta foi muitas vezes por algo mais simples – que era contornar o facto de que homens e mulheres tinham que estudar em alas separadas. Esta é uma das histórias secretas do maio de 68 [risos]. Isso para dizer que a vida íntima está muito próxima da política e da luta coletiva. Digo isto porque essa dimensão não se encontra em Godard, mas já se encontra mais em, como citou, Bertolucci.

 

A abordagem frontal de temas relativos à homossexualidade tornou-se uma conquista do cinema contemporâneo. Ao mesmo tempo assiste-se pelo Ocidente ao regresso do discurso conservador.

 

Essa é uma questão interessante. Quando era muito jovem, no final dos anos 70, via-me a mim mesmo como uma espécie de "dandy" “gay” – era “cool”, pensava em Jean Genet, Oscar Wilde…

 

Por causa da SIDA descobri, talvez como muitos outros homossexuais, que tudo isso eram parvoíces porque a nossa vida não significava grande coisa para o resto da nossa sociedade. O nossos amores e histórias eram nada. Foi como se a epidemia tivesse posto toda a gente de regresso ao armário, já não tínhamos a via de ser “gay” como um "dandy", transformou-se numa maldição e tornou-nos as pobres vítimas de uma epidemia. A primeira sensação foi de raiva.

 

Em tempos recentes foi a questão do casamento homossexual a despertar uma segunda onda de homofobia. Percebemos que a igualdade não era para nós. Parece-me que foi mais importante em França do que aqui, os debates foram muito duros e surgiram argumentos retrógrados baseados nos acontecimentos de 20 anos atrás. Também houve ativismo – um milhão de pessoas foram às ruas contra o casamento ‘gay’.

 

Havia um ‘background’ religioso nos protestos?

 

A religião estava lá, mas tenho que dizer que, apesar da maioria deles serem católicos, nós sabemos que a maioria dos católicos é a favor do casamento "gay". Claro que estavam lá muitos, mas eles não representam todos os outros. O que acabamos por descobrir depois de todos estes anos é que tudo tem a ver com ser discreto. Pode ser homossexual se for discreto. Retrocedemos, depois do Act up identidade ‘gay’ voltou ao debate político.

 

Tal como em “Eastern Boys”, que abordava a questão da prostituição masculina, este também tem um tema forte. Apesar disto, são filmes cheios de vitalidade, nada deprimentes…

 

Sim, tem razão. Tem a ver com o facto de que nunca me senti tão vivo. No caso de"120 Batimentos por Minuto", estava na Act Up que, como disse, representava um momento de libertação para todos – isso independente de estarem pessoas a morrer. Nós éramos bons a viver a vida, em ir a festas, não estávamos preocupados em ter um bom emprego e a planear uma carreira. Foram as últimas luzes dos anos 70.

 

 

A esta altura o filme coleciona prémios e elogios. Como lida com isso? Sente-se pressionado para desenvolver um novo projeto?

 

Em relação a um novo filme, se não encontrar algo que realmente queira, não vou fazer nada.

 

Mas já tem alguma ideia?

 

Tenho duas, mas neste momento não tenho os direitos para fazer as adaptações, portanto tenho de esperar… Mas não farei se não estiver inspirado o suficiente. Não tenho medo disto.

 

Para mim, a pressão está noutro lado. Realmente queria ir a Cannes, queria muito que o filme chegasse lá. Mas quando um filme é exposto, sou exposto como realizador. Não é fácil. Não gosto disto e quando estava em Cannes foi duro para mim. Não preciso ser reconhecido pelo que faço. Se não recebesse prémios estaria tudo bem, o público e os críticos já tinham gostado, então OK, já ficávamos por aí [risos].

 

E ainda pode ganhar um Óscar…

 

Exato, é uma loucura saber disto. Só o facto de pensar que posso ter de subir ao palco para agradecer deixa-me doente [risos]. Sei por exemplo que, como aconteceu nos César [com “Eastern Boys”], teria de ir à cerimónia e isso deixa-me doente por causa do medo do palco. Tenho medo de ser filmado, de ser visto em público. Se estiver com mais alguém já é mais fácil. Sei que isso é estúpido, mas é real. Quero a estatueta, mas não ser eu a ir recebê-la….

 

Pode fazer como o Marlon Brando e mandar uma índia…

 

[risos] Poderia fazer isso! Bom, tinha pensado em algo mais modesto, como mandar o meu irmão ou um sósia [risos]. Outra ideia é dizer ao produtor para fazer o discurso, do estilo ‘você foi tão importante, você merece!’

 

Bom, é melhor não dizer isso publicamente, caso contrário não ganha…

 

Sim e a culpa é sua! [risos].