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Cannes, penúltimo dia: uma análise com Paulo Portugal

por Roni Nunes, Sábado, 27.05.17

Já quase a completar duas décadas de participação no famoso festival da Croisette, Paulo Portugal, este ano em Cannes pelo Sol, Jornal I e Insider, fez um balanço de uma edição muito promissora no papel - mas que, como seria inevitável, trouxe confirmações e algumas desilusões. Na altura da entrevista faltavam ser exibidos os filmes de Fatih Akin e, uma das esperanças de praticamente toda a gente depois do fabuloso "Temos de Falar com Kevin", Lynn Ramsey.

 

Loveless.jpg

 

A programação da competição oficial de Cannes este ano era, no papel, irrepreensível. Acha que a espectativa inicial tem se confirmado? Será a melhor edição em anos com base nos filmes que já viste?

 

No papel, tudo é sempre incrível. Mas, infelizmente, os filmes não respondem pelo nome dos realizadores ou o hype que vão ganhando. Por isso, acabamos por gradualmente ir refreando as nossa expectativas. Pelo menos, assim aconteceu este ano. Se é a melhor? Acho que já vai respondido... 

  

Até agora o maior consenso positivo será em torno do filme russo “Loveless” (foto acima). Já ouvi críticas de russos que dizem que o realizador Andrey Zviyagintsev vende para o Ocidente uma perspetiva falsa da verdadeira Rússia… Independente disto, parece que ele conseguiu outra vez agradar toda a gente.

 

Sim, "Loveless", o novo filme do Zviyagintsev é forte e conciso. Mas talvez não tanto como Leviatã.Ainda assim, um cinema irrepreensível e preciso, a traçar um retrato da atual sociedade russa, de um certo desamor baseado num afastamento social, embora com pudor de apontar um dedo que seja ao sistema. Algo que estava mas presente em Leviatã. De resto, o próprio realizador, com quem tivemos oportunidade de falar, mostrou-se mais cauteloso e sublimando qualquer tipo de ingerência política. 

 

Um filme no qual eu, pessoalmente, depositava boas espectativas, era o do Robin Campillo – porque era apenas o seu terceiro filme e o anterior, “Eastern Boys”, era muito intenso. Com uma abordagem de temática LGBT, acha que será o outro grande candidato à Palma de Ouro?

 

"120 Batimentos por Minuto" (assim poderá ser o eventual título em português - apesar de não confirmar a aquisição nacional) é candidato sim. Mesmo sem ter presente a atualidade do tema, não deixa de ter uma mensagem forte, que rima mais com ação e menos com palavras. E com o tal beat. A mim fez-me lembrar a mesma urgência de passar à ação, em "Nocturama", o tal filmaço de Bertrand Bonello, cujo tema por incluir atentado em Paris ficou o ano passado afastado de Cannes. E que insiste em não estrear. Mas, sim, Campillo, sim!

 

Depois há sempre Haneke. Que impressões notou dos presentes e quais as tuas próprias sobre o filme?

 

Haneke precede Haneke. E este "Happy End" já vem falado desde o ano passado por Isabelle Huppert - de resto terá sido dos primeiros - se não mesmo o primeiro, a chegar à seleção oficial. Ainda assim, não figura nos meus "palmarés". Será por deixar tudo em lume brando, como em "O Lanço Branco"? Por aflorar de forma afetiva o seu próprio cinema? Seria uma Palma demasiado óbvia. E, a meu ver, imerecida.

 

E Cannes não pode viver sem controvérsias entre os críticos. Parece que a fazer de Refn ou Sorrentino, este ano, há Yorgos Lanthimos – outro realizador que tem no currículo filmes fortíssimos… Ao mesmo tempo as críticas ao filme de Bong Joon-ho parece mais uma questão de embirrar com a Netflix, certo?

 

Não sei. Lanthimos tem muitos entusiastas. Pessoalmente, parece-me que já é um Lanthimos cercado sobre si próprio, como tive ocasião de escrever. E até a substituir-se a Haneke. Mas isso pode ser só coisa minha. Atenção, gostei muito da "Lagosta". E (Nicole) Kidman não trás absolutamente nada.

 

Quanto ao "Okja", sou sincero, não me parece ser um filme talhado para a Seleção Oficial de Cannes. Disse-me o realizador, na nossa entrevista, que o filme já estava desenhado antes da chegada da Netflix. Tudo bem. Mas mantenho a mesma ideia. Se era para fazer uma fantasia juvenil, mais calhada para o pequeno ecrã (e quem disse que não pode ser um filme vistoso como este?), então passava fora de competição, para mostrar as estrelas. Tilda Swinton é uma grande atriz, mas não acrescenta nada ao filme. Tal como um Jake Gyllenhaal pateta. Se fosse apenas um filmezinho coreano ficava melhor.    

  

Quando escrevi o artigo de abertura e nenhum filme tinha sido exibido, apostei a brincar no filme do Haneke como favorito. A estas alturas, depois de teres visto quase todos filmes da competição, queres fazer a tua aposta?

 

Pois, com o Haneke não se brinca! Se é de aposta que se trata, gosto de ganhar, por isso procuro fazer uma análise colocando-me na cabeça do júri que tem de decidir. Assim sendo e olhando para os filmes que me agradaram, diria que os que têm possibilidade de vencer a Palma de OUro deveriam mostrar alguma intencionalidade em fazer bom cinema e ter um tema pertinente para os dias de hoje.

 

Eu ficaria satisfeito se o prémio maior (ou do júri) fosse entregue ao fulgurante sueco "The Square", de Thomas Ostlund. Há aqui um confronto que agita (e de que maneira!) o nosso confortável modo de vida. Um filme que nos faz perguntas para as quais não sabemos se conseguimos ter uma resposta isenta. Fazer isso com grande cinema é atingir algo grandioso. Ainda por cima com arte. O cinema sensorial da japonesa Naomi Kawase começa a reclamar o devido reconhecimento. "Radiance" pode não ser perfeito, mas falta-lhe muito pouco.

 

Vivemos entretanto (mais) uma brava partida de Ozon. Falta ainda Fatih Akim, que promete trazer tema e emoção para cima da mesa. E ainda a escocesa Lynn Ramsay (uma nossa preferida), que não faz cinema por dá cá aquela palha. Por isso, teremos Palmas até ao fim!

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por Roni Nunes às 12:40

Entre a "arte pela arte" e a fogueira das vaidades: começa hoje (17/05) o Festival de Cannes

por Roni Nunes, Quarta-feira, 17.05.17

Artigo originalmente postado em C7nema (http://www.c7nema.net/festival/item/46649-entre-a-arte-pela-arte-e-a-fogueira-das-vaidades-comeca-hoje-17-05-o-festival-de-cannes.html)

 

O festival mais pomposo do mundo começa hoje (17/05) e termina a 28. Enquanto abrem-se as passarelas para a fogueira das vaidades fazer o seu desfile entre tapetes vermelhos e coquetéis à beira-mar, ficam para os suspeitos do costume a tarefa de salvar o conceito romântico de "arte pela arte".

 

É um "dream team" autoral numa programação irrepreensível: este ano a Seleção Oficial é de tal ordem precisa que nem desordeiros como Nicholas Winding Refn ou Paolo Sorrentino estarão por lá para a guerra dos apupos. E arte visceral... haverá?

 

Marion Cottilard volta dos mortos

 

Arnaud Desplechin e o seu Ismael's Ghosts garantem uma abertura caseira – com elenco de luxo: Matthieu Amalric, Charlotte Gainsbourg, Marion Cotillard, Phillippe Garrel. Amalric é um realizador prestes a iniciar um novo filme – quando a sua antiga amada (Cotillard) "retorna dos mortos" e torna a sua vida um inferno. Ele então remete-se à reclusão junto dos seus fantasmas. Por estas horas já exibido à imprensa (a sessão de gala é à noite), parece ter recebido uma ensurdecedora indiferença.

 

 

De resto no alinhamento francófono há um François Ozon com seu (quase) infalível filme anual, Amant Double, o "artista" Michel Hazanavicius com Le Redoutable e o veterano Jacques Doillon com Rodin. Mas a maior promessa será Robin Campillo, que ainda não teve tempo de dececionar: fez apenas dois filmes e Eastern Boys, o anterior, é magnífico. O novo chama-se 120 Beats per Minute.

 

Murros no estômago e futurologia

 

Entre aqueles que raramente desiludem estão os cotados para atingir aquele píncaro que faz da arte uma experiência visceral. O maior de todos é Michael Haneke que, segundo previsões astrológicas bastante "precisas", vai levar a Palma de Ouro com Happy End: o cineasta é genial, Isabelle Huppert está no elenco e o filme é sobre um campo de refugiados no norte da França.

 

Se tudo correr bem numa segunda-feira potencialmente eletrizante (22/05), os presentes levarão um duplo murro no estômago: a fazer companhia ao austríaco estará Yorgos Lanthimos – que conseguiu segurar a pressão de uma estreia internacional com A Lagosta e agora traz The Killing of a Sacred Deer.

 

I'm afraid of americans

 

 

Da América as propostas circulam entre o indie-nova-iorquino hipster e as falsas promessas de Sofia Coppola. Entre o melhor espera-se Todd Haynes, cujo Wonderstruck tem sessão já amanhã, particularmente porque o último plano de Carol foi iluminado; já Noam Baumbach trás The Meyerowitz Stories e os irmãos Safdie (Benny e Josh) Good Time. Quanto à Sofia Coppola, que devia ir a Cannes escondida numa burca depois de Bling Ring, surge com The Beguiled.

 

Sem Liga dos Últimos

 

Click to enlarge image okja0003.jpg

 

O húngaro Kornél Mundruczó (de Deus Branco) nunca falhou o festival: cinco filmes, cinco presenças. O novo chama-se Jupiter's Moon. Por seu lado o russo Andrey Zuyagintsev, outro habitual, vem da megaunanimidade de Leviathan e aparece com Loveless, enquanto o ucraniano Sergei Loznitsa trás A Gentle Creature.

O naipe de asiáticos é do mesmo patamar de relevância: tem Naomi Kawase (Radiance), Bong Joon Ho (Okja) e Hong Sangsoo (The Day After).

Por fim, mas não menos importante, o sueco Ruben Östlund (The Square) vem do consagradíssimo Força Maior e Lynn Ramsay deixa a incógnita sobre o que virá com You're Never Really Here depois do estupendo Temos que Falar sobre Kevin ser seguido pelo desastre de As Armas de Jane (quando abandonou as filmagens um dia antes de elas começarem). Talvez o grande corredor por fora será o turco Fatih Akin, muitos anos depois do Urso de Ouro do Head-on- A esposa turca.  O projeto chama-se In the Fade.

 

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por Roni Nunes às 18:53


Comentários recentes

  • Cleber Nunes

    Sem dúvida é um filme que me despertou interesse ...